Um Marco na Captação de Água no Ceará
Um levantamento exclusivo do O POVO revela que o estado do Ceará recebeu 28.900 cisternas do Programa Cisternas entre 2023 e 2025. Este período marca a reativação da iniciativa pelo Governo Federal e coloca o Ceará como o estado que mais recebeu esses equipamentos em todo o Brasil desde o início da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nos anos de 2023, 2024 e 2025, foram entregues, respectivamente, 1.700, 12.200 e 15.100 unidades, totalizando o maior volume de entrega em um triênio. Quando se comparam os dados de 2025 a 2022, observa-se um crescimento de impressionantes 459%, uma vez que naquele ano apenas 2.700 cisternas foram concluídas no estado.
O Programa Cisternas tem como objetivo principal a captação e o armazenamento de água em regiões com escassez hídrica, assegurando o abastecimento para consumo humano. Os equipamentos são utilizados em escolas, lavouras e criação de animais, além de fomentar a agricultura familiar e gerar renda local ao empregar mão de obra das próprias comunidades.
Concentração de Entregas no Nordeste
Nos últimos anos, o Programa Cisternas contabilizou 104.300 unidades entregues em todo o Brasil, sendo que 88,6% dessas cisternas estão localizadas na região Nordeste, a mais afetada historicamente pela estiagem. Somente em 2025, foram concluídas 48.900 cisternas no país, das quais cerca de 43 mil estão no Nordeste.
Alguns estados tiveram um crescimento notável nas entregas em comparação a 2022. O Pernambuco, por exemplo, subiu de apenas 15 unidades entregues em 2022 para 4.400 em 2025, uma impressionante alta de 29.200%. O Maranhão também apresentou um expressivo aumento, passando de 19 para 701 cisternas (3.500%). Já o Rio Grande do Norte aumentou de 218 para 2.300 (955%). O Ceará lidera o ranking nacional de entregas, seguido pela Bahia, com 21.200 unidades.
Objetivos e Público-Alvo do Programa Cisternas
Iniciado em 2003, o Programa Cisternas visa garantir o acesso à água por meio de tecnologias simples e de baixo custo. O público-alvo são as famílias da zona rural com renda per capita de até meio salário mínimo, além de equipamentos públicos rurais afetados pela seca ou pela falta regular de água. Para participar, é necessário estar inscrito no Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Federal.
Na atual gestão, através do Novo PAC, foram contratadas mais de 189 mil unidades, com uma meta total de 219 mil. O investimento totaliza R$ 1,7 bilhão e abrange ações em 1.037 municípios de 19 estados. Desde a criação do programa, mais de 1,34 milhão de cisternas já foram entregues em todo o Brasil.
Tecnologias Adaptadas ao Semiárido
A principal área de atuação do programa é o semiárido brasileiro, onde a tecnologia mais comum é a cisterna de placas, com capacidade para 16 mil litros, destinada ao consumo humano. Também estão disponíveis cisternas maiores, com capacidade para 52 mil litros, voltadas para a produção de alimentos e a dessedentação animal. Outras modalidades incluem sistemas multiuso, cisternas comunitárias e estruturas específicas para escolas públicas rurais, especialmente na Região Norte.
Transformação na Vida dos Agricultores
No município de Morada Nova, localizado no Vale do Jaguaribe, o agricultor Francisco Regivaldo Assunção compartilha que a chegada das cisternas mudou drasticamente a rotina de sua família. Antes, a água era disputada com animais em açudes da região durante períodos de seca. Agora, além da cisterna para consumo humano, ele possui uma cisterna de enxurrada, que garante água para sua produção agrícola: “Hoje, a água vem filtrada do córrego, passa pelos canos e cai direto na cisterna. Isso ajuda muito na produção”, relata.
Em Senador Pompeu, no Sertão Central, 423 cisternas foram entregues desde janeiro de 2023. O agricultor Francisco Linhares destaca que essa tecnologia não apenas facilitou o acesso à água potável, mas também ampliou a produção de ovos, mel, leite, feijão e frutas. “A seca sempre existiu. A gente precisa aprender a conviver com ela”, pondera.
Impactos Econômicos e de Saúde
Além do acesso à água, o Programa Cisternas apresenta impactos indiretos significativos. Segundo o coordenador nacional da iniciativa, Vitor Santana, a ação contribui para a redução de doenças de veiculação hídrica, diminuição da mortalidade infantil e aumento da produção agroalimentar. “A iniciativa dinamiza a economia local e gera renda para as famílias beneficiadas”, explica.
Para agricultores como Iolanda Santos, da comunidade Paiol, em Parnarama (MA), os efeitos são visíveis. “Antes, a gente plantava só para comer. Hoje, dá para vender e gerar renda”, afirma. Essa transformação é evidenciada pela entrega de 124 cisternas na comunidade entre 2024 e 2025.
