Relações Controversas no Agronegócio
Recentemente, o Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) fez um apelo para que se pressione a Amaggi a interromper a compra de fertilizantes de origens questionáveis, provenientes de áreas ambientalmente sensíveis ocupadas por Israel na Palestina. A Amaggi, uma das maiores produtoras de soja do Brasil, obteve insumos da empresa israelense ICL, que tem sido acusada de extrair recursos de terras palestinas de forma ilegal.
Através de investigações realizadas pela Repórter Brasil, foi possível rastrear navios que deixaram o Porto de Ashdod, em Israel, e chegaram ao Porto de Itacoatiara, no Amazonas, em janeiro. As cargas continham 34 mil toneladas de cloreto de potássio e 11,3 mil toneladas de superfosfato simples, essenciais para a fabricação de fertilizantes. A repórter também assinalou que esse não seria o primeiro envio entre a ICL e a Amaggi; há registros de transações anteriores, conforme dados alfandegários.
Em resposta às denúncias, o Grupo ICL afirmou que suas operações estão totalmente dentro das fronteiras israelenses e em conformidade com as normas vigentes. Contudo, as ocupações israelenses na Palestina, que datam de 1967, são consideradas ilegais segundo o direito internacional, uma vez que violam as resoluções da Organização das Nações Unidas que definem as diretrizes para a criação de Israel em 1947.
Impactos Ambientais e Sociais
Além das controvérsias legais, a ICL também é acusada de causar deslocamentos forçados de comunidades, como os beduínos no deserto de Naqab. Para a abertura de uma nova mina de fosfato perto de Arad, aproximadamente 100 mil moradores da região seriam impactados, dos quais cerca de 15 mil são beduínos. Um incidente em 2017, onde a ICL Rotem despejou 100 mil metros cúbicos de resíduos tóxicos no rio Ashalim, exemplifica os impactos ambientais negativos associados às atividades do grupo.
Além de sua atuação em terras palestinas, a ICL está implicada no fornecimento de fósforo branco para armamentos militares dos EUA. Esse material é utilizado por Israel em ações contra civis palestinos, configurando um cenário alarmante de violação de direitos humanos e crimes de guerra, segundo diversos especialistas e relatórios de organizações internacionais.
A Amaggi, que se posiciona entre as dez maiores empresas do agronegócio brasileiro segundo a Forbes, não identificou em suas práticas qualquer fator que limitasse suas transações com a ICL. A companhia enfatizou seu compromisso com a ética e a transparência, mesmo diante das críticas contundentes sobre as implicações de suas aquisições.
Contexto Econômico e Relações Bilaterais
Os laços econômicos entre Brasil e Israel são profundos, somando mais de US$1,2 bilhão em 2024, embora isso represente uma diminuição de 14,9% em comparação ao ano anterior. O Brasil importa uma variedade de produtos israelenses, sendo os fertilizantes e inseticidas os mais destacados, enquanto os setores de agronegócio e indústria extrativa se beneficiam significativamente das exportações brasileiras. Apesar dos desafios, as relações continuam a ser sustentadas por setores privados, particularmente no agronegócio, que desempenham um papel crucial no financiamento de um Estado que é visto por muitos como colonizador.
A luta pela liberdade da Palestina se entrelaça com questões de justiça climática e responsabilidade corporativa, especialmente quando se considera que o agronegócio brasileiro, em busca de lucros, contribui para o sofrimento de comunidades vulneráveis. Enquanto isso, o governo brasileiro prioriza o financiamento ao agronegócio, cortando investimentos em áreas críticas como saúde e educação, o que levanta mais questões sobre as prioridades nacionais.
O agronegócio brasileiro, portanto, não é apenas um setor econômico; ele representa uma faceta do capitalismo que se entrelaça com as questões de imperialismo e colonialismo. Em tempos de dificuldades humanitárias, como a crise em Gaza, onde milhares enfrentam a fome, a necessidade de conscientização sobre as práticas empresariais e seus impactos sociais e ambientais se torna ainda mais urgente. O futuro do Brasil e da Palestina pode estar mais ligado do que se imagina, e as lutas por justiça social e ambiental não podem ser dissociadas.
