Um Olhar Sobre as Dúvidas da Juventude
O cineasta Laurent Cantet, conhecido por sua obra “Entre os Muros da Escola”, de 2008, enfrentou um desafio monumental ao tentar finalizar seu último projeto, “Enzo”, mesmo diante de uma batalha contra um câncer agressivo. Apesar das limitações impostas por sua saúde, que o impediram de iniciar as filmagens, Cantet confiou o projeto ao assistente Robin Campillo, responsável pelo aclamado “120 Batimentos por Minuto”, de 2017. Campillo agora assume as rédeas deste filme que explora as nuances da adolescência em um contexto repleto de incertezas.
A história se desenrola em torno de Enzo, um jovem de 16 anos que vive em uma casa confortável no Sul da França. Contudo, há uma desconexão clara entre seu estilo de vida privilegiado e suas expectativas pessoais. Em vez de se sentir à vontade em sua realidade, Enzo parece mais um intruso em seu próprio lar, evidenciando uma crise de identidade típica da adolescência.
Decidido a não seguir o caminho convencional de seus colegas, que buscam um futuro promissor por meio da educação, Enzo toma uma decisão ousada: ele abandona a escola e opta por trabalhar. No entanto, sua escolha de profissão é inesperada, já que decide se tornar pedreiro em um canteiro de obras, um trabalho que não seria o mais esperado para alguém de sua origem social.
Embora seus pais inicialmente vejam essa decisão como uma fase passageira da adolescência, uma simples rebeldia, a situação logo se torna mais complicada do que esperavam. Ao contrário do que imaginavam, Enzo não está buscando apenas um tempo fora da escola; ele está em uma busca profunda por sua própria identidade.
Herança Cinematográfica e Questões Existenciais
O personagem Enzo evoca uma conexão com o filme clássico “Cada Um Vive Como Quer”, de 1970, dirigido por Bob Rafelson, onde Jack Nicholson abandona sua vida confortável em busca de liberdade em um trabalho braçal. Ambos os personagens compartilham uma sensação de insatisfação com o mundo burguês, mas a jornada de Enzo ocorre em um contexto menos radical. Ele ainda não possui uma compreensão clara de seus ideais, mas sua resistência em se conformar com a rotina de classe média é nítida.
No canteiro de obras, Enzo se mostra desajeitado, agindo com uma apatia que reflete seu estado emocional. No entanto, sua vida ganha um novo sentido quando se torna amigo de Vlad, um imigrante ucraniano que fugiu da guerra. Esta amizade provoca uma série de mudanças em Enzo, despertando não apenas sua sexualidade, mas também uma consciência sociopolítica. A cada conversa sobre a situação de Vlad e a guerra na Ucrânia, Enzo começa a refletir sobre questões geopolíticas, que antes eram distantes para ele.
Paradoxalmente, as condições de trabalho no canteiro e a realidade da guerra suscitam uma mistura de sentimentos em Enzo, que se vê atraído tanto pelo drama humano quanto pela sexualização dos ambientes masculinos que frequenta. “Enzo” se destaca entre os filmes contemporâneos por abordar temas complexos de forma naturalista, desafiando a correção política ao tocar em assuntos espinhosos.
As Complexidades da Adolescência e a Visão do Cineasta
A obra de Campillo é um retrato das incertezas típicas da adolescência, mas vai além da simples descoberta do amor. A narrativa é permeada por uma aridez que contrasta com a ternura presente nas interações entre os personagens. Essa dualidade enriquece a experiência do espectador, que pode perceber a vulnerabilidade de Enzo, interpretado pelo jovem Eloy Pohu. A performance de Pohu, por vezes marcada pela inexperiência, contribui para a crueza e autenticidade do personagem, que está em constante busca por seu lugar no mundo.
O filme apresenta um Enzo multifacetado, cujas interações provocam mudanças significativas não apenas nele, mas também nas pessoas ao seu redor. A culpa burguesa que desperta em seu pai é uma reflexão sobre as escolhas de vida e a pressão social sobre a juventude. Campillo, ao assumir essa responsabilidade criativa, infunde ao filme uma unidade e coerência impressionantes, demonstrando o cuidado e respeito pela obra que herdou de Cantet.
No final, “Enzo” é uma celebração da complexidade da adolescência, abordando questões de identidade, desejo e política com uma sensibilidade que cativa. O filme se torna, assim, um marco que não só explora as incertezas da juventude, mas também a forma como diferentes realidades podem se entrelaçar de maneira surpreendente.
