A Importância do Carnaval nas Políticas Culturais
O Carnaval brasileiro vai muito além das festividades que atraem milhões de foliões. Essa celebração se estabelece como um campo estratégico para a geração de conhecimento, o desenvolvimento de políticas públicas e a promoção social. Essa nova perspectiva, que reposiciona a maior manifestação cultural do Brasil, é resultado de pesquisas que emergem da vivência nos territórios do samba.
Conforme destaca o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, “para cada pessoa que brilha na avenida, existem centenas de trabalhadores nos barracões e nos bastidores garantindo o sustento de suas famílias. Nossa missão é valorizar essas trajetórias, tratando o Carnaval não como um gasto sazonal, mas sim como um investimento contínuo em políticas públicas de inclusão social.”
Rafaela Bastos, uma referência na pesquisa sobre o Carnaval e atual presidente do Instituto Fundação João Goulart na Prefeitura do Rio de Janeiro, combina sua experiência pessoal na avenida com a formulação de políticas públicas. Ela iniciou sua trajetória investigativa focando na figura das mulheres passistas, observando os preconceitos que marcaram sua própria história profissional.
Desafios e Reflexões no Carnaval
“Eu fui passista da Mangueira por treze anos e, em seguida, musa da comunidade por mais dez. Hoje, sou vice-presidente de Projetos Especiais da escola. Essas experiências diversas, diferentes daquelas que aparecem na mídia, moldaram minha formação”, explica Rafaela. Ela menciona que o samba frequentemente é associado a estereótipos femininos, mas essas vivências a fortaleceram em suas escolhas e na busca por um entendimento mais profundo sobre esses preconceitos.
Quando começou como passista, seu objetivo era ser geógrafa, mas percebeu a dinâmica de discriminação que poderia impedir seu avanço ou forçá-la a optar entre sua carreira profissional e sua paixão pelo samba. Essa inquietação a levou a investigar a objetificação sexual das mulheres passistas na Marquês de Sapucaí, pesquisa que ganhou reconhecimento nacional e foi agraciada com a Medalha Rui Barbosa em 2017, uma das mais altas honrarias da cultura brasileira.
“Foi nesse ambiente que percebi que, mesmo me dedicando intensamente, minhas aspirações profissionais poderiam não se concretizar, não por falhas pessoais, mas devido a estruturas de machismo e racismo que persistem”, reflete.
A Economia do Carnaval e Políticas Culturais
A partir de 2016, seus estudos começaram a abranger a economia do Carnaval, introduzindo conceitos de macro e microeconomia, economia circular e seus impactos econômicos. “Cada escola de samba não apenas representa uma cultura, mas também se torna parte de um ecossistema produtivo complexo que abrange cadeias de produção, serviços e a geração de emprego e renda”, observa Rafaela.
Entre 2017 e 2021, ela aprofundou a análise sobre o comportamento dos investidores no Carnaval, explorando a relação das escolas de samba com mecanismos de apoio financeiro, como a Lei Rouanet. “Investigar quanto as escolas solicitam, o que é aprovado e o que realmente conseguem captar é crucial para identificar desafios e oportunidades para políticas públicas mais efetivas”, ressalta.
Um dos principais obstáculos é a falta de reconhecimento institucional das atividades econômicas ligadas ao Carnaval. “O que vemos é que o Carnaval ainda é marginalizado e tratado de forma informal em sua dimensão econômica”, destaca Rafaela. Para ela, reconhecer o Carnaval como uma política pública estruturante é essencial para avançar nesse debate. “Embora o Carnaval exista há mais de um século e movimente a economia criativa e cultural, ele ainda não é considerado um segmento econômico consolidado. Essa é a minha luta atual”, conclui.
Um Novo Olhar sobre o Carnaval
Esse entendimento se alinha com a abordagem do Ministério da Cultura, que tem se dedicado a aprofundar a análise do Carnaval como um pilar do desenvolvimento cultural, econômico e social do Brasil. Recentemente, uma missão internacional de pesquisa focada em Carnaval, economia criativa e valor público teve início, com a colaboração entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose da University College London.
De acordo com Mariana Mazzucato, diretora da instituição, “o Carnaval exemplifica como a cultura não deve ser encarada como uma despesa, mas como um investimento que impulsiona a produtividade e gera valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é, de fato, muito superior ao custo de agir”.
O impacto social do Carnaval transcende sua dimensão econômica, promovendo coesão social e fortalecimento da identidade. “O que se observa é que o Carnaval gera um valor que muitas vezes não aparece nas métricas tradicionais. Ele cria laços sociais, desenvolve habilidades e dissemina conhecimento; isso é um investimento de longo prazo”, pondera Mazzucato.
Conscientização e Inclusão
O Ministério da Cultura busca integrar o Carnaval a diversas agendas sociais, trabalhando junto a conselhos voltados para os direitos da criança, da mulher e da promoção da igualdade racial. Neste período de intensa mobilização nos espaços públicos, a instituição se empenha em conectar as políticas culturais com os direitos humanos, reafirmando a cultura como um instrumento de proteção, cidadania e diversidade.
Márcia Rollemberg, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, enfatiza que “o Carnaval é uma das expressões mais efervescentes da diversidade cultural brasileira, um espaço de alegria, criação e reafirmação de identidades. Dada sua força mobilizadora, é imperativo que o Carnaval seja celebrado com respeito e um compromisso com os direitos humanos”. Ela conclui convocando artistas, gestores, produtores culturais e toda a sociedade a se unir no objetivo de transformar o Carnaval em um espaço seguro e inclusivo em todos os cantos do país.
