Desafios e Oportunidades
O Espírito Santo se destaca como o maior produtor de pimenta-do-reino do Brasil, com uma produção que supera 70 mil toneladas e responde por 61% das exportações nacionais da especiaria em 2024. No entanto, uma situação que deveria ser celebrada começa a gerar preocupações. As exigências dos países importadores estão se intensificando, enquanto muitos dos produtores capixabas parecem relutantes em adotar mudanças essenciais no manejo das lavouras, especialmente nas etapas de pós-colheita.
Esse alerta vem da Associação Brasileira de Especiarias (BSA). De acordo com o presidente da entidade, Frank Moro, o nível de exigência varia conforme o mercado de destino. Enquanto os Estados Unidos e a Europa impõem normas rigorosas, parte do mercado asiático e alguns países árabes ainda operam com padrões menos restritivos, embora essa realidade esteja mudando. ‘A tendência global é alinhar-se aos padrões europeus e norte-americanos, uma vez que os países reconhecem a importância de oferecer alimentos seguros para o consumo’, afirma Moro.
Um exemplo que ilustra bem essa mudança é o Vietnã. Apesar de não possuir legislações tão rígidas, os importadores vietnamitas que adquirem pimenta brasileira para reexportação identificaram a presença de antraquinona — uma substância potencialmente cancerígena — em lotes brasileiros durante análises laboratoriais. ‘Desde então, esses importadores passaram a exigir uma pimenta de qualidade superior, que é a seca ao sol, um produto que também é preferido por consumidores americanos e europeus’, explica.
A Questão da Secagem
O cerne da questão está no processo de secagem do produto, frequentemente feito em secadores a lenha. A antraquinona está frequentemente associada ao uso desse método. ‘Esse processo foi inspirado na secagem do café, que é comum entre os produtores capixabas. Contudo, ao contrário do café, a pimenta é consumida quase in natura, o que demanda cuidados mais rigorosos no pós-colheita. Além do risco de contaminação, a secagem a lenha resulta em um produto de qualidade inferior’, destaca o presidente da BSA.
Moro acrescenta que a secagem natural ao sol é mais eficiente para preservar compostos importantes dos grãos, como a piperina e os óleos voláteis. ‘Esses componentes são muito mais evidentes em pimentas secas de forma natural. Em contrapartida, a secagem mecanizada pode comprometer essas propriedades e, em alguns casos, causar contaminações que são impossíveis de remover durante o beneficiamento’, alerta.
Resíduos Químicos: Outro Desafio
Além da antraquinona, outra preocupação significativa são os resíduos químicos resultantes do uso inadequado de inseticidas e herbicidas, frequentemente aplicados sem a devida orientação. ‘Esse é, sem dúvida, um problema crítico. Esses resíduos são analisados em testes laboratoriais por compradores da Europa e dos Estados Unidos. A presença deles pode comprometer embarques e contratos’, ressalta Moro.
A necessidade de conscientização é um desafio que a BSA enfrenta. Frank explica que a entidade está promovendo fóruns para sensibilizar os agricultores sobre o mercado, sustentabilidade e boas práticas agrícolas. Entretanto, alguns produtores ainda ignoram as exigências, pois conseguem vender sua pimenta sem atender a esses critérios. Contudo, a falta de adequação começa a refletir no bolso do produtor.
Impactos Econômicos
Com as mudanças nas exigências de mercado, o produtor que não se adapta corre o risco de ver sua mercadoria desvalorizada. ‘Estamos observando uma desvalorização da pimenta seca de secadores rotativos em comparação com a seca ao sol. Atualmente, a pimenta seca ao sol é comercializada por até R$ 1,50 a mais por quilo do que o produto seco em secadores rotativos. Isso significa que o agricultor está sendo penalizado por não se adequar’, conclui Frank Moro.
