Impacto do Contato com a Natureza no TDAH
No atual contexto em que transtornos de desenvolvimento infantojuvenil, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), geram preocupação entre famílias, instituições escolares e profissionais de saúde, um estudo inovador publicado na revista Educação & Realidade destaca uma alternativa de tratamento que se distancia dos métodos tradicionais de sala de aula e consultórios clínicos.
A pesquisa intitulada “Crianças com TDAH em Contato com a Natureza: transformações possíveis”, foi realizada por um grupo de especialistas, incluindo a Dra. Mônica Maria Siqueira Damasceno, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Dra. Jane Márcia Mazzarino, da Universidade do Vale do Taquari (Univates), e Dra. Aida Figueiredo, da Universidade de Aveiro, em Portugal. O estudo analisa de forma sistemática os efeitos que experiências em ambientes naturais exercem sobre os sintomas do TDAH em crianças.
A investigação qualitativa, realizada em escolas no Brasil, sugere que a interação com a natureza pode amenizar sintomas como hiperatividade, impulsividade e desatenção em crianças diagnosticadas com o transtorno. Esse achado abre novas oportunidades para repensar práticas pedagógicas e terapêuticas.
O TDAH, conforme a literatura científica, é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades em manter a atenção e controlar impulsos, além de níveis de hiperatividade que não correspondem ao estágio de desenvolvimento da criança. Tradicionalmente, esses sintomas são tratados com medicamentos e terapias comportamentais, mas há um consenso crescente de que essas abordagens isoladas não atendem todas as necessidades dos indivíduos afetados. Nesse sentido, a pesquisa de Damasceno e seus colegas se propõe a investigar o potencial do contato com a natureza, um fator subexplorado nas estratégias convencionais, como um agente transformador no comportamento infantil.
Desenvolvimento da Pesquisa no Crato
O estudo foi realizado no município de Crato, no Ceará, uma região rica em biodiversidade e ecossistemas, propiciando um ambiente ideal para experiências em contato com a natureza. As vivências foram realizadas com crianças de escolas públicas, que participaram de atividades ao ar livre, permitindo uma interação direta com a paisagem e a vida silvestre local.
A pesquisa seguiu um delineamento qualitativo de caráter exploratório, envolvendo crianças entre sete e doze anos diagnosticadas com TDAH, conforme laudos médicos reconhecidos. Após a triagem, 11 crianças foram selecionadas para participar do estudo, divididas em dois grupos: um Grupo de Intervenção, que teve acesso às atividades em ambientes naturais, e um Grupo Controle, que manteve a rotina habitual.
As intervenções consistiram em ciclos de atividades em ambientes naturais, focadas em experiências sensoriais, motoras e cognitivas. As atividades incluíram caminhadas ecológicas, exploração de fauna e flora locais, além de interações livres com elementos naturais, sempre supervisionadas por pesquisadores e com o consentimento dos responsáveis legais. Para garantir a ética da pesquisa, todos os responsáveis assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes do início das atividades.
Resultados e Conclusões da Pesquisa
Um dos principais achados do estudo indicou que, embora os subtipos de TDAH permanecessem presentes após as vivências na natureza, os sintomas observaram uma diminuição em sua intensidade entre os participantes. Isso sugere que comportamentos como impulsividade, desatenção e agitação se tornaram menos intrusivos, indicando que a natureza pode funcionar como um elemento que restaura e modula a condução comportamental em crianças com TDAH.
Esses resultados estão alinhados com estudos internacionais que evidenciam os benefícios do contato com ambientes naturais, como melhora na atenção, memória e bem-estar psicológico em crianças. Embora não representem uma solução única ou definitiva para o TDAH, esses achados apontam para um caminho promissor de integração entre educação, saúde e meio ambiente.
A análise qualitativa realizada pela equipe de pesquisa revelou que as crianças que participaram das atividades demonstraram, ao longo do tempo, um aumento significativo de calma em contextos menos estruturados, além de uma maior capacidade de interação social. Educadores e responsáveis relataram uma postura mais colaborativa e uma redução perceptível de comportamentos disruptivos durante interações sociais. Esses relatos convergentes sugerem uma tendência positiva que mereceria ser aprofundada em estudos futuros com métodos variados.
Implicações Científicas e Sociais
A relevância científica desse trabalho está na evidência de que o ambiente pode desempenhar um papel ativo no desenvolvimento comportamental e cognitivo de crianças com TDAH. Ao incorporar o contato com a natureza nas intervenções, o estudo reflete uma tendência interdisciplinar que une educação, psicologia, saúde pública e educação ambiental, ressaltando a importância do meio ambiente nas dinâmicas de aprendizagem e no desenvolvimento biopsicossocial das crianças.
Socialmente, os resultados sugerem que práticas pedagógicas que incluam atividades estruturadas em ambientes naturais podem contribuir para a redução da intensidade dos sintomas do TDAH. Essa perspectiva demanda uma reconsideração do currículo escolar, promovendo a criação de espaços verdes e a integração de atividades externas no processo de ensino-aprendizagem.
Além disso, esses achados podem fundamentar iniciativas de educação inclusiva que considerem alternativas contextuais ao tratamento clínico tradicional, oferecendo a famílias e redes de apoio uma gama mais ampla de opções. Considerando a prevalência do TDAH nas escolas e seu impacto no desempenho acadêmico e nas relações sociais, abordagens que promovam a saúde e o bem-estar por meio da conexão com a natureza podem representar um avanço em direção a práticas educativas e terapêuticas mais integradas e humanizadas.
Considerações Finais
A discussão sobre a relação entre o contato com a natureza e o desenvolvimento infantil extrapola o âmbito do TDAH. Pesquisas em psicologia ambiental têm explorado como a interação com ambientes naturais pode melhorar a restauração cognitiva, reduzir o estresse e promover comportamentos pró-sociais. Autores afirmam que experiências sensoriais em espaços verdes são vitais para o desenvolvimento de vínculos afetivos e cognitivos que transcendem a mera observação do meio ambiente.
