Consequências do Conflito no Irã para o Agronegócio
O advogado Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, destaca a importância de estarmos atentos ao cenário atual. “Os contratos não se suspendem imediatamente devido a forças maiores, pois os exportadores brasileiros podem encontrar novas rotas, como pelo Mediterrâneo. Contudo, essas alternativas costumam ser mais onerosas e complexas”, explica.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) observou que está monitorando a situação, mas, até o momento, não há informações concretas sobre os impactos nas empresas.
Além disso, a guerra no Oriente Médio pode ter reflexos positivos nos preços do etanol. A XP, em um relatório recente, analisa como o conflito já está provocando uma alta significativa nos preços do petróleo nas bolsas internacionais. Na sessão desta segunda-feira, os contratos do tipo Brent e WTI subiram mais de 2%, com o barril superando os US$ 70.
Essa valorização no mercado internacional tende a favorecer o biocombustível, dada sua competitividade em relação aos combustíveis fósseis.
Interferência nos Custos dos Fertilizantes
Outro ponto importante é que o Irã é o principal fornecedor de gás natural utilizado na produção de fertilizantes para países que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria. A analista de mercado de fertilizantes da Safras&Mercado, Maísa Romanello, afirma: “Esses países dependem do gás do Irã para a produção de ureia. Se houver interrupção no fluxo de gás, a disponibilidade de matéria-prima será reduzida”.
No Egito, os preços da ureia já estão próximos a US$ 540 por tonelada, um aumento de mais de 10% em relação à semana anterior, quando eram inferiores a US$ 490, segundo a consultoria StoneX.
Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, ressalta que a região do Oriente Médio representa cerca de 40% das exportações globais de ureia, 28% das exportações de amônia e 29% das exportações de DAP. “Logo após o início do conflito, fornecedores de ureia da região retiraram suas ofertas, buscando esclarecer a precificação”, destaca.
Exportação Brasileira em Risco
Os exportadores brasileiros já se mobilizam para encontrar novas rotas para suas exportações para o Oriente Médio. De acordo com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as remessas que anteriormente passavam pelo canal de Ormuz e Suez deverão ser redirecionadas para a rota em torno do Cabo da Boa Esperança, ao sul da África. “Estamos prevendo um aumento de custos e também uma maior demora na entrega dos produtos”, declarou Santin. Rotas via Turquia e outros portos da região, como Salalah, em Omã, também estão sendo avaliadas.
A ABPA informa que o Brasil exporta anualmente cerca de 200 mil contêineres, com 25% desse total destinado ao Oriente Médio.
A MBRF, com operações na Arábia Saudita e Emirados Árabes, declarou que está priorizando a segurança de seus colaboradores na região e que suas operações não estão sendo afetadas. A empresa ativou um plano de contingência para garantir o abastecimento das operações. A JBS, por sua vez, optou por não comentar a situação.
Desafios para o Setor de Frutas
Waldyr Promicia, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), informou que algumas empresas de frete marítimo interromperam o envio de navios para o Golfo Pérsico, o que compromete as exportações para essa região. “Com certeza teremos que suspender essas operações, pelo menos temporariamente. Essa fruta sobrará e será direcionada a outros mercados, sobrecarregando a oferta”, lamentou o executivo.
O cenário incerto também levanta preocupações sobre a disponibilidade de contêineres nos próximos meses, lembrando a crise logística enfrentada durante a pandemia de Covid-19.
Dependência do Milho e Fertilizantes
Em 2025, o Irã se consolidou como o maior importador de milho brasileiro, totalizando 9 milhões de toneladas, o que representa 23% do total exportado pelo Brasil. Contudo, a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) expressa preocupação com a instabilidade geopolítica relacionada aos fertilizantes, especialmente a ureia, um insumo fundamental para a cultura do milho. O Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil em 2025.
Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, observa: “Sempre que há conflitos militares, ficamos apreensivos, pois dependemos das exportações, mas também precisamos dos fertilizantes, que na maioria são importados. A situação da ureia se torna ainda mais complicada devido ao seu alto custo e à demanda de outros países, como os EUA”.
Nos próximos dias, dez navios estão programados para carregar cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo de soja com destino ao Irã, conforme dados da Alphamar Agência Marítima. Arthur Neto, sócio diretor da empresa, ressalta a incerteza sobre o futuro dessas cargas após os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que levaram empresas a retirar suas embarcações da região do Estreito de Ormuz.
Dos dez navios, seis já estão na área de fundeio dos portos brasileiros, aguardando o início da carga. Outros quatro estão em trânsito para a costa brasileira. Do total, cinco devem partir do porto de Santos, quatro de Paranaguá (PR) e um do porto de Tubarão (ES).
“A grande incerteza é o que acontecerá com esses dez navios que já estavam agendados para o Irã. As tradings que negociam essa carga vão manter o negócio? Ou os navios serão redirecionados para outras rotas?”, questionou Neto em conversa com a reportagem.
