Comunicadores Avaliam a Importância das Redes Sociais na Política
As redes sociais emergiram como um dos principais palcos para disputas políticas, mobilizações sociais e formação de consciência coletiva. Essa reflexão foi o foco da mesa “Plataformas Digitais na Disputa de Projetos: Leitura Crítica das Ferramentas de Comunicação”, realizada durante o segundo dia do 10º Encontro Nacional de Comunicação da CUT (Enacom), que acontece em São Paulo, de 12 a 14 de março, nas instalações do Dieese.
O painel contou com a participação do influenciador Ivan Vieira e da jornalista Nina Fideles, diretora executiva do Brasil de Fato, sob a mediação de Maria Faria, secretária de Comunicação da CUT Nacional. O debate abordou os desafios enfrentados pela comunicação progressista no ambiente digital, bem como o papel das redes sociais na disputa de narrativas e a necessidade de fortalecer a presença do campo democrático nessas plataformas.
Ao iniciar o debate, Ivan Vieira enfatizou que a comunicação política está passando por uma transformação significativa, ressaltando que as redes sociais não são mais um mero complemento às estratégias tradicionais, mas sim um aspecto essencial.
“Muita gente diz que redes sociais são importantes para disputar narrativas ou vencer eleições. Não. Elas são essenciais. Hoje, não são mais um suporte, mas a arena onde devemos estar, ouvir e disputar”, afirmou.
De acordo com Vieira, uma mudança crucial deve ocorrer na forma como as mensagens são veiculadas. Ele destacou que uma linguagem excessivamente formal ou publicitária pode dificultar a conexão das mensagens políticas com o público. “As pessoas querem se sentir próximas de quem está se comunicando. A vida real se conecta com pessoas reais”, completou.
O comunicador também destacou que sua experiência nas redes sociais demonstra o potencial de alcance dessas plataformas, especialmente quando há uma estratégia clara e constância na comunicação. Ele, que se considera uma pessoa reservada, conseguiu atrair uma audiência significativa, com quase dois milhões de seguidores e cerca de 80 milhões de visualizações mensais. “Se eu consegui, qualquer um pode. Sempre fui uma pessoa tímida e discreta”, destacou.
Vieira ainda enfatizou que a disputa política nas redes exige uma resposta rápida e uma presença constante. Segundo ele, a extrema direita frequentemente consegue estabelecer suas narrativas primeiro, consolidando versões que depois se tornam difíceis de rebater. “Quando reagimos, o dano já foi feito. O que construímos em décadas pode ser destruído em um dia nas redes sociais”, alertou.
Outro ponto crucial abordado foi a diferença de recursos entre comunicadores progressistas e a extrema direita, que frequentemente conta com financiamento e apoio institucional. Vieira observou que, enquanto muitos criadores de conteúdo do campo democrático trabalham por paixão e de forma isolada, a direita tem acesso a uma estrutura robusta e apoio financeiro. “No nosso campo, quem cria conteúdo muitas vezes faz isso por amor, enquanto a direita investe em infraestrutura e apoio profissional”, afirmou.
Ele argumentou ainda que a comunicação política deve ser clara e direta para aumentar o alcance das mensagens. “Discurso complicado não conquista confiança. A vida como ela é impacta mais. Precisamos falar de maneira simples para que todos compreendam”, completou.
“Tem que estar em todas as redes, todos os dias, com simplicidade, autenticidade e respostas rápidas. A democracia é como banho: deve ser feito diariamente”, ressaltou Ivan Vieira.
Desafios e Possibilidades no Cenário Digital
Seguindo o debate, Nina Fideles apresentou uma análise sobre os limites e contradições do ambiente digital. Ela argumentou que, embora as redes sociais ampliem a circulação de conteúdos, isso não implica necessariamente em uma democratização da comunicação. “O fato de podermos abrir um canal não significa que a comunicação é verdadeiramente democrática. Estamos operando em um espaço que não nos pertence e que continua sob o controle das plataformas”, frisou.
Fideles também advertiu sobre o perigo de avaliar a eficácia da comunicação apenas pelos números de audiência. Para ela, o verdadeiro impacto político das informações deve ser o principal critério de avaliação. “Às vezes, a matéria mais lida é um serviço sobre feriados. O que realmente importa é: qual o impacto político do que estamos comunicando?”, questionou. Ela citou reportagens que geram repercussão social significativa, como a exposição de injustiças ou abusos contra trabalhadores, como exemplo de conteúdo que efetivamente provoca debates públicos e mudanças.
A diretora do Brasil de Fato enfatizou que diferentes estruturas de comunicação desempenham papéis distintos na disputa política, desde veículos independentes até assessorias institucionais e comunicações sindicais. “Não existe uma abordagem única. Um veículo como o Brasil de Fato cumpre um papel diferente de uma assessoria ou de um setor de comunicação sindical”, afirmou.
Fideles também destacou a mudança nos hábitos de consumo de informação, especialmente entre os jovens, que estão cada vez mais expostos a conteúdos curtos e filtrados por algoritmos. “Hoje, crianças e adolescentes acessam redes sociais e rapidamente se deparam com conteúdos misóginos ou extremistas. Isso é o algoritmo atuando”, alertou.
Diante desse cenário, a jornalista defendeu que a comunicação progressista deve combinar disputa de narrativas com conteúdos educativos e de formação política. “Às vezes, precisamos voltar ao básico: explicar como funciona o parlamento, o que faz um vereador, o que significa uma política pública. Sem isso, fica difícil formar consciência”, concluiu. Para ela, o trabalho de comunicação política deve ser concebido a longo prazo e alinhado com processos de organização social. “A comunicação não resolve a política; ela ajuda as pessoas a entenderem o que está em jogo. Mas sem a organização e a participação ativa, a comunicação sozinha não é suficiente.”
