Uma Abordagem Colaborativa para a Saúde
No Brasil, municípios localizados no interior estão se organizando em redes de colaboração para melhorar o acesso aos serviços de saúde, adotando uma estratégia conhecida como planificação. Essa iniciativa visa reduzir as deficiências no atendimento, promovendo uma troca de serviços entre as cidades envolvidas.
Por meio dessa estratégia, um grupo de cidades se reúne para discutir as melhores ofertas de serviços de saúde disponíveis em cada local. A ideia é criar um fluxo organizado de pacientes, em que as populações das pequenas cidades possam ser atendidas em áreas com mais recursos, como nos municípios vizinhos. Este modelo de integração está em linha com as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Um exemplo bem-sucedido dessa abordagem está sendo implementado no Ceará, especificamente na Região Metropolitana do Cariri, que abrange 45 municípios, incluindo três grandes cidades: Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. Nesses centros urbanos, são realizados atendimentos que exigem maior complexidade, como consultas de especialidades. Assim, moradores de cidades menores, como Granjeiro, com uma população de aproximadamente 4.800 habitantes, precisam se deslocar até os municípios maiores para obter atendimento. O transporte para essas viagens é garantido pelas prefeituras locais.
Resultados Positivos e Objetivos Futuros
Os resultados da planificação têm sido encorajadores. Entre 2023 e 2024, a mortalidade infantil na Região Metropolitana do Cariri caiu em nove pontos percentuais, de 11 para 10,1 a cada mil nascidos vivos, conforme dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). A meta é alcançar um índice de mortalidade infantil de um dígito.
Maria José Evangelista, assessora técnica do Conass e coordenadora da iniciativa, afirma que essa estratégia tem contribuído para a redução das desigualdades de acesso à saúde nas pequenas cidades, um problema histórico nessas regiões. “Os pacientes do sertão enfrentavam grandes dificuldades para conseguir consultas com especialistas. Com a planificação, eles podem ir à cidade maior e serem atendidos por até 12 médicos diferentes em um único dia”, explica Maria.
Para garantir a eficácia da planificação, os profissionais de saúde da atenção primária são capacitados para realizar triagens detalhadas, classificando os pacientes em grupos baseados em suas condições de saúde, sejam crônicas ou agudas. Doenças como diabetes e gestação são priorizadas, de acordo com Maria.
Autocuidado e Educação em Saúde
O treinamento dos profissionais também enfatiza a importância de entender as condições de cada paciente e orientá-los sobre autocuidado, levando em conta suas realidades físicas e financeiras. “Assim, as pessoas se sentem mais próximas da saúde, pois recomendamos o melhor que podem fazer com seus recursos. Isso envolve uma alimentação adequada e exercícios físicos possíveis dentro de suas condições”, complementa Maria.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 460 regiões de saúde organizadas sob o conceito de Redes de Atenção à Saúde, proposto pelo sanitarista Eugênio Vilaça. Embora nem todas as regiões adotem a planificação, a intenção é expandir essa abordagem nos próximos anos.
Sustentabilidade da Iniciativa a Longo Prazo
Thais Junqueira, superintendente da Umane, que apoia o projeto de planificação, destaca que essa metodologia deixa um legado duradouro. “Uma vez que o conhecimento é incorporado, é difícil retroceder. O método se torna parte da política pública, e mesmo com a troca de governos, as equipes que permanecem sustentam a continuidade do SUS”, afirma.
Ela ressalta que, no modelo tripartite de saúde, a atenção primária é de responsabilidade dos municípios, enquanto os estados cuidam das especialidades. “Independentemente da divisão de responsabilidades, o essencial é garantir que toda a região receba o atendimento necessário”, conclui Thais.
