Desafios do Agronegócio em Tempos de Conflito
A guerra entre EUA e Israel contra o Irã, que teve um impacto imediato no mercado de petróleo, também gera consequências negativas para diversos setores produtivos. O agronegócio brasileiro, que tradicionalmente recebe muitos subsídios, está solicitando apoio do governo federal, incluindo isenções tributárias e outros incentivos para lidar com os efeitos desse conflito.
Em entrevista ao BdF, Olímpio Barbante, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), recorda a Lei Kandir, que foi promulgada durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Essa lei isentou a exportação de produtos primários e semi-elaborados do ICMS, trazendo grandes benefícios ao agronegócio. Barbante destaca que, em tempos de guerra, há uma “sobreposição a benefícios que já existem”, complicando ainda mais o cenário econômico.
Barbante cita uma declaração de Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, que mencionou que o Brasil patrocina o agronegócio, com isenções totais que somam R$ 158 bilhões. “Se analisarmos os dez produtos que dominam a balança comercial, seis estão ligados a commodities básicas e quatro são agrícolas. Os empresários do agronegócio recebem apoio tanto por meio dessa injeção fiscal direta quanto por benefícios indiretos, como isenções no óleo diesel. Embora o setor se apresente como de alta tecnologia, isso ocorre às custas do bolso do cidadão brasileiro”, critica.
Impactos Visíveis do Conflito no Setor Agrícola
Os reflexos da guerra já podem ser percebidos, especialmente no que diz respeito à produção de fertilizantes. A região do Golfo é responsável por cerca de 40% da ureia global, um insumo crucial na fabricação de fertilizantes. “Esses nutrientes são indispensáveis não apenas para a agricultura em larga escala, mas também para a jardinagem caseira. Eles estão presentes em toda a nutrição vegetal, seja no agronegócio ou na horta de casa”, explica Barbante.
O professor ressalta que o Brasil não possui capacidade de produzir fertilizantes em volume suficiente para atender à demanda interna, considerando a extensão de suas terras e a agricultura existente. Portanto, o país continuará a depender das importações. Barbante lembra que, durante a gestão de Dilma Rousseff, houve a tentativa de promover a produção nacional de fertilizantes pela Petrobras, mas esse projeto foi encerrado sob a administração de Jair Bolsonaro.
Previsões para o Preço dos Alimentos e Commodities
Os impactos mais profundos, especialmente nos preços finais dos produtos, ainda estão por vir. “Atualmente, estamos colhendo uma safra que foi plantada meses atrás, utilizando fertilizantes a preços normais. Assim, os preços dos alimentos, tanto para exportação quanto para o consumo interno, começarão a ser sentidos a partir do segundo semestre deste ano e ao longo de todo o próximo”, prevê Barbante.
De acordo com ele, o milho será um dos produtos mais afetados, pois é fundamental na alimentação de animais. “O preço do frango, ovos e produtos suínos também sofrerá impacto”, acrescenta. Para Barbante, essa vulnerabilidade estrutural na economia agrícola se tornará um ponto crítico nos próximos meses. “É possível que os preços dos alimentos aumentem em cerca de 20%”, estima.
