Crítica à Superficialidade Cultural
Recentemente, J. Cole participou do podcast Lost In Vegas e compartilhou sua preocupação com a maneira como o termo “cultura” tem sido utilizado no universo do hip hop. Para o rapper, essa palavra, que um dia carregou um significado profundo relacionado à identidade e pertencimento, foi reduzida a uma mera estratégia de marketing e manipulação algorítmica.
“Hoje, é uma palavra vazia”, declarou Cole. “Ela costumava ter um significado real. Agora, parece apenas um chamariz para gerar hype sem valor. O que muitos estão chamando de cultura é, na verdade, algo fabricado, resultado de campanhas publicitárias ou manipulações de bots e algoritmos”.
O rapper acredita que a internet acelerou a propagação de elementos culturais a um ponto que se torna problemático. Expressões que emergem em comunidades negras são rapidamente apropriadas e disseminadas globalmente, frequentemente sem o devido contexto ou noção de origem. “Por conta desse fenômeno, que ele chama de ‘cultura’, ou melhor, da economia da internet, certas palavras não permanecem com a voz das mulheres negras por mais de um ou dois dias antes de serem capturadas e diluídas”, afirmou.
A Nova Turnê e O Álbum ‘The Fall-Off’
A fala de J. Cole ocorre em um momento significativo para sua carreira, já que seu sétimo álbum de estúdio, intitulado The Fall-Off, está prestes a ganhar uma turnê mundial. As apresentações começam em julho, na América do Norte, e seguirão para Europa, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, com o encerramento previsto para dezembro. A pré-venda dos ingressos alcançou números impressionantes, com 800 mil bilhetes vendidos, tornando-se a maior pré-venda de uma turnê de hip hop em 18 mercados simultaneamente. O sucesso fez com que Cole aumentasse sua agenda de shows de 54 para 73 datas, adicionando mais 19 performances em arenas.
Antes de se lançar nessa extensa turnê, J. Cole está percorrendo os Estados Unidos com a Trunk Sale Tour, uma iniciativa onde ele vende CDs diretamente do porta-malas de seu Honda Civic antigo, voltando às suas raízes e se conectando com os fãs de maneira autêntica.
Explorando Temas Pessoais em ‘The Fall-Off’
O conceito de The Fall-Off é tanto simples quanto impactante: o álbum é uma reflexão sobre duas viagens que Cole fez para Fayetteville, Carolina do Norte, sua cidade natal. A primeira viagem aconteceu quando ele tinha 29 anos, recém-saído de Nova York, ainda com a paixão ardente pela música. A segunda ocorreu aos 39 anos, agora casado e pai de dois filhos, carregando a bagagem emocional acumulada ao longo de dez anos no auge da fama. Cada uma dessas experiências se traduz em um disco (Disco 29 e Disco 39), funcionando como retratos de um homem que voltou para casa, mas que não é mais o mesmo.
O tema que permeia o álbum é a luta interna de Cole. Ele sempre sonhou em ser famoso, mas a fama trouxe um distanciamento de suas raízes. Sua conexão com Fayetteville, carinhosamente chamada de ‘the Ville’, se perdeu com o tempo. Isso não é devido a uma falta de carinho por sua cidade, mas sim resultado da transformação que a notoriedade acarreta. Ao retornar, ele percebe que as pessoas que ficaram para trás não vivem mais a mesma realidade que ele. Os amigos enfrentam dificuldades, alguns não estão mais entre nós, e aqueles que permanecem o veem como uma celebridade, e não como Jermaine, seu verdadeiro eu. Mesmo frequentando os mesmos lugares, agora ele se vê obrigado a calcular cada movimento, temendo a violência ou a exposição na mídia. Essa tensão entre o desejo de pertencimento e a incapacidade de se sentir em casa é o que faz de The Fall-Off uma narrativa envolvente e madura.
The Fall-Off é considerado um clássico instantâneo e, ao lado de 2014 Forest Hills Drive e 4 Your Eyez Only, forma uma tríade fundamental na carreira do rapper. O álbum é ambicioso, denso e repleto de elementos para serem apreciados. Cada nova audição revela camadas e conexões que antes pareciam soltas, mas que estão entrelaçadas. Sua decisão de se afastar da rivalidade com Kendrick e Drake causou insatisfação em alguns, mas permitiu que cole se focasse no que realmente sabe fazer: rap introspectivo e honesto, que não busca agradar a indústria, mas sim reconciliar-se com seu verdadeiro eu. Não acredito que The Fall-Off será o último álbum de Cole, mas se ele realmente está se despedindo, temos diante de nós uma obra destinada a se tornar um clássico, a ser revisitada e estudada por muitos anos. Uma década de trabalho que certamente valeu a pena.
