A Precariedade das Rotas Marítimas no Agronegócio
São Paulo – O fechamento do estreito de Ormuz, uma rota vital para o agronegócio brasileiro, está gerando sérias incertezas para o setor. A região é essencial para o transporte de produtos e insumos rumo ao Oriente Médio e à China, e a instabilidade atual atrapalha os planos de empresas brasileiras que operam nessas áreas. Devido à escalada do conflito, operadores de logística tiveram que adicionar uma chamada “taxa de guerra” para desviar seus navios cargueiros por rotas alternativas.
No último sábado (18), o Irã havia anunciado a reabertura para a passagem de navios, após uma breve trégua com os Estados Unidos, mas a situação mudou rapidamente e, até este domingo, a via continuava fechada. Essa incerteza é algo que pesa sobre o agronegócio, especialmente considerando que, em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 169,2 bilhões, sendo que os envios de commodities agrícolas para o Oriente Médio somaram US$ 12,4 bilhões – representando 7,4% do total exportado.
Impactos Econômicos e Logísticos
Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), ressalta que as restrições em Ormuz complicam a manutenção dos volumes de exportação das empresas brasileiras na região. “O principal prejuízo [para as companhias] está nos custos e no grande esforço necessário para garantir as entregas através de rotas alternativas”, explica Santin. “Esperamos que um acordo seja alcançado em breve, pois a situação está crítica para manter os volumes, mas as vendas têm ocorrido, e a primeira parcial de abril indica um fluxo contínuo.”
As rotas alternativas têm sido pelo mar Vermelho, canal de Suez e estreito de Bab el-Mandeb. Embora essa via seja considerada de alto risco, ela se tornou a preferida no momento. Em face do risco de ataques de rebeldes houthis no mar Vermelho, alguns navios estão desviando suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, uma jornada maior e mais complexa.
A Dependência Brasileira dos Insumos Estrangeiros
A região do Oriente Médio é um importante destino para carne de frango e milho brasileiros, com países como Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos figurando entre os maiores compradores de commodities nacionais. Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper, acredita que as empresas brasileiras encontrarão formas de alcançar esses mercados, já que esses países precisam fortemente dos produtos brasileiros. “O Irã, por exemplo, é um dos principais importadores de milho do Brasil, essencial para a produção de frango local”, afirma Jank.
No entanto, ele também aponta que a questão dos insumos é um desafio premente. O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, e o estreito de Ormuz desempenha um papel crucial nesse escoamento. Através desse ponto estratégico, 40% das exportações globais de ureia, 30% de amônia, 24% de fosfatos e 50% de enxofre são enviadas. Esses produtos são fundamentais para a produção agrícola, e a dependência brasileira dessas importações gera um clima de insegurança para a próxima safra.
“Estamos enfrentando uma situação crítica em relação aos fertilizantes. Este é o principal problema atualmente. A abertura do estreito é vital, pois é por ali que muitos desses insumos são transportados. A safra começa em setembro, mas é imprescindível que os fertilizantes cheguem antes disso. Portanto, esse é o nosso grande desafio”, ressalta Jank.
Consequências para o Setor Comum
A MBRF, que controla as marcas Sadia e Perdigão, também reportou os efeitos das restrições no estreito de Ormuz, com o tempo médio de entrega na região subindo de 40 para mais de 60 dias, um aumento significativo de pelo menos 50%. Segundo Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da empresa, “o custo do frete aumentou devido ao que os nossos parceiros logísticos chamam de ‘taxa de guerra’, considerando que a região está sob conflito. Além disso, a logística terrestre também ficou mais cara, assim como os custos de armazenagem.”
A situação continua em constante evolução e se torna um reflexo das tensões geopolíticas que afetam diretamente o agronegócio brasileiro. A capacidade de adaptação e a busca por soluções alternativas serão fundamentais para enfrentar essa crise e garantir a continuidade das operações no setor.
