Nova indústria no Ceará fortalece cadeia produtiva do camarão
A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) anuncia a instalação da primeira grande indústria de beneficiamento de camarão no Ceará. A Unidade de Processamento de Camarão do Vale (UPC do Vale) será construída em São João do Jaguaribe, em um terreno de 39.279 m² às margens da rodovia CE-377. Com capacidade para processar até 10 toneladas de camarão por dia, o projeto representa um investimento total de R$ 10 milhões, dividido entre infraestrutura física (R$ 7 milhões) e maquinário (R$ 3 milhões). A expectativa é a geração direta de cerca de 100 empregos, além de vagas indiretas em setores como transporte, manutenção, comércio, embalagens e refrigeração.
Vale do Jaguaribe: polo nacional do camarão cultivado
O empreendimento está localizado no Vale do Jaguaribe, região que concentra grande parte da produção que faz do Ceará o maior estado produtor de camarão cultivado no Brasil. Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que o Ceará produziu 83,7 mil toneladas de camarão em 2024, o equivalente a 57,1% da produção nacional, que totalizou 146,8 mil toneladas. No ranking dos municípios produtores, Aracati lidera com 18 mil toneladas, seguido por Jaguaruana, Russas e São João do Jaguaribe, este último escolhido para sediar a nova unidade industrial.
Parcerias técnicas e recursos para viabilização
Além da Codevasf, a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) conduzirão os estudos de viabilidade econômica, ambiental e técnica do projeto. Os recursos para a execução vêm de um Termo de Execução Descentralizada (TED) firmado entre o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e a Codevasf.
Superando um gargalo histórico da cadeia produtiva
Para Neto Cavalcante, superintendente regional da Codevasf no Ceará, a nova fábrica enfrenta um desafio antigo da cadeia produtiva do camarão: a falta de capacidade adequada para beneficiamento. “O objetivo é implantar uma unidade industrial que atenda aos requisitos ambientais, sanitários e de segurança alimentar, capaz de processar camarão cultivado por pequenos produtores locais”, explica. A unidade visa produzir camarão congelado para atender os mercados nacional e internacional, além de estimular o desenvolvimento socioeconômico regional.
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Fonte: edemossoro.com.br
Cavalcante destaca que o Vale do Jaguaribe já possui um Arranjo Produtivo Local (APL) consolidado, com fazendas de cultivo, laboratórios, fábricas de ração e empresas de serviços, mas ainda carece de estrutura para beneficiamento. “A UPC do Vale vai suprir essa lacuna, ampliando a capacidade de processamento e armazenamento, agregando valor ao produto e fortalecendo a economia regional”, afirma.
Gestão cooperativa para fortalecer pequenos produtores
A Codevasf pretende que a gestão da unidade seja feita por uma cooperativa de produtores locais, incentivando o associativismo e ampliando os benefícios para pequenos e médios carcinicultores. O acesso dos produtores deve ocorrer por meio dessas cooperativas, promovendo melhor organização e inserção no mercado.
Beneficiamento industrial transforma a comercialização
Luiz Paulo Sampaio, presidente da Associação dos Produtores de Camarão do Ceará (APCC), recebe a iniciativa com otimismo. Para ele, a indústria vai estruturar a cadeia de frio necessária para dar vida de prateleira ao camarão cultivado e ampliar os mercados atendidos. “Hoje, a venda do camarão in natura sofre com flutuações de preço, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. A capacidade de processar e armazenar a produção permitirá preços mais estáveis e melhores para toda a cadeia”, destaca.
Desafios da informalidade no setor
Apesar do avanço, Sampaio reconhece que o crescimento acelerado da carcinicultura trouxe desafios, especialmente a informalidade na atividade. “É preciso formalizar os produtores para viabilizar acesso a linhas de crédito com juros subsidiados, fundamental para investimentos e custeio”, afirma. A APCC tem atuado junto a órgãos públicos e privados para promover a regularização e licenciamento dos produtores, com ações como o mutirão de licenciamento durante eventos regionais.
Perspectiva de retomada das exportações
O presidente da APCC também vê na UPC do Vale uma oportunidade para o Ceará retomar sua posição de liderança nas exportações de camarão, que já foi referência mundial no início dos anos 2000. “A capacidade atual das indústrias locais não acompanha o crescimento da produção, e grande parte do camarão é processada em outros estados, perdendo empregos e receitas aqui. A iniciativa pública pode ser um projeto piloto para novas indústrias e ampliar a presença do camarão cearense no mercado global”, avalia.
Estrutura e sustentabilidade da unidade
A unidade terá áreas específicas para recepção de matéria-prima, processamento, laboratórios, congelamento, embalagem, administração e serviços aos funcionários, além de uma fábrica de gelo com capacidade diária de 30 toneladas. O projeto prevê preservar mais de 50% do terreno como área permeável e inclui sistemas para tratamento de efluentes, controle de resíduos e reuso de água, garantindo sustentabilidade ambiental. O terreno já é antropizado e não interfere em áreas protegidas.
Etapas finais e perspectivas de gestão
Segundo Neto Cavalcante, o projeto está em fase de elaboração dos estudos e projetos estruturais. Após aprovação, seguirá para licenciamento ambiental e contratação das obras e equipamentos. A gestão operacional deve ser concedida a uma cooperativa local, com possibilidade de entrada de parceiros para capacitação, gestão e concessão de crédito.
Outras iniciativas para o fortalecimento da cadeia do pescado
A Codevasf mantém outras frentes em desenvolvimento, incluindo um laboratório para análise da qualidade da água, estrutura para recepção de pós-larvas e alevinos, além de sistemas de aquaponia, que combinam criação de peixes com agricultura, visando ampliar a sustentabilidade e produtividade do setor pesqueiro no Ceará.
