Maioria dos eleitos na Assembleia Legislativa do Ceará tem laços familiares com políticos
No último domingo (4), os eleitores do Ceará definiram os 46 deputados estaduais que irão compor a nova legislatura da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) a partir de 1º de fevereiro de 2027. Um levantamento do g1 aponta que pelo menos 33 desses eleitos possuem parentes que já exerceram ou ainda ocupam cargos políticos, incluindo filhos, irmãos, pais, maridos e esposas. Essa realidade corresponde a 71% dos parlamentares que estarão na Casa.
Entre as 46 cadeiras, 20 serão preenchidas por deputados reeleitos, enquanto 26 são novatos ou retornantes. O PSB assumirá a maior bancada, com 13 representantes, seguido pelo PT, com 11, e pelo PL, com 6 deputados.
Dinastias políticas e influência familiar na composição da Alece
O levantamento do g1 destacou que muitos deputados lançaram parentes para cargos eletivos ou foram lançados na política por familiares já estabelecidos no cenário público. As informações foram coletadas a partir de dados públicos e confirmadas pela reportagem.
Casos de casais eleitos simultaneamente aparecem na lista, como a deputada estadual Bella Carmelo (PL), a mulher mais votada entre as candidatas, e seu esposo, Carmello Neto (PL), eleito deputado federal. O presidente da Assembleia, Romeu Aldigueri (PSB), lançou sua esposa, Tainah Marinho (PSB), para deputada federal, que se tornou a mulher mais votada da história do Ceará para a Câmara dos Deputados.
As linhagens políticas se estendem por gerações. Domingos Filho (PSD), ex-vice-governador do Ceará, retorna à Assembleia depois de um período afastado. Ele é pai da vice-governadora eleita Gabriella Aguiar (PSD), do deputado federal reeleito Domingos Neto (PSD) e marido da prefeita de Tauá, Patrícia Aguiar.
Outro exemplo é o deputado estadual Zezinho Albuquerque (PP), eleito para o nono mandato consecutivo. Ele é pai do deputado federal AJ Albuquerque e integra uma família com múltiplos prefeitos em Massapê, município da região norte do Ceará.
Prefeitos, irmãos e pais: os vínculos familiares no Legislativo estadual
Há ainda diversos casos em que prefeitos e ex-prefeitos lançaram suas esposas para a Assembleia, como Jô Farias (PT), Lizianny Medeiros (PT), Fabiola Carneiro (PT) e Georgia do Marcelão (Solidariedade). Entre irmãos, Gadyel (PT) substitui seu irmão Alysson Aguiar (PCdoB), que não concorreu à reeleição, enquanto Elizeu Monteiro (PSB) inicia seu mandato na Assembleia, irmão de Robério Monteiro (PSB), deputado federal reeleito.
Filhos de políticos também se destacam na Alece, como Ilo Neto (PT), filho do ex-deputado Agenor Neto, e Manu Pimenta (PSB), filha do prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta (PSB).
Apenas 13 deputados eleitos não possuem parentes com histórico de cargos eletivos, evidenciando o predomínio das famílias políticas na nova legislatura.
Levantamento detalhado e trajetórias políticas das famílias
A reportagem listou, em ordem alfabética, os deputados estaduais eleitos que têm parentes na política, destacando sua relação familiar e trajetória. Entre eles, destacam-se nomes como Bella Carmelo (PL), Davi Benevides (PSDB), Domingos Filho (PSD), Elizeu Monteiro (PSB), Emilia Pessoa (PSDB), e Romeu Aldigueri (PSB), entre outros.
O levantamento revela a presença constante de vínculos familiares na política estadual, envolvendo casamentos, filiações e alianças que atravessam gerações e municípios.
Especialista analisa o fenômeno das famílias políticas no Ceará
O professor e historiador Raimundo Alves de Araújo observa que o poder dessas famílias está frequentemente ligado à posse de terras e à prestação de serviços que criam uma relação de dependência com a população. Ele ressalta que o fenômeno atual se aproxima do clientelismo, caracterizado pela troca de favores por apoio político, e não do coronelismo tradicional.
Segundo Araújo, essas famílias são formadas por membros com formação superior e atuação empresarial em diversos setores, incluindo agricultura, comércio e transporte. Ele destaca que o poder dessas famílias não se limita a municípios pequenos, pois muitas vezes elas formam alianças regionais para garantir votos suficientes para cargos estaduais e federais.
O historiador também aponta que esse fenômeno não é exclusivo do Nordeste, mas comum em todo o Brasil, e que essas famílias políticas são adaptáveis e pragmáticas, sem uma ideologia fixa, mantendo sua influência por meio do controle institucional da política local.
