Brincar como expressão cultural e social no Cariri
Na Serra do Catolé, em Juazeiro do Norte (CE), o desenho de uma amarelinha ganha vida pelas mãos de Allycia Maria Ferreira, de 9 anos. Em meio a traços no chão feitos com carvão, outras crianças também participam, transformando o espaço em um cenário de brincadeiras tradicionais. Para Allycia, o ato de brincar vai além do lazer: é uma forma de “viver” e compartilhar momentos que reforçam a convivência.
No bairro Pio XII, conhecido por sofrer estigmas relacionados à raça e classe, o coletivo do Reisado Mirim Padre Cícero traz à tona a importância do brincar enquanto guardião da cultura regional. Fundado em 2024, o grupo reúne meninos e meninas que veem na tradição do Reisado uma maneira de cultivar o senso de pertencimento e a história do Cariri.
Tradição e pertencimento no Reisado Mirim Padre Cícero
Francisco Miguel Freire, 11 anos, é exemplo de como o contato familiar e comunitário inspira o aprendizado cultural. Desde os 6 anos, acompanhando a mãe nas apresentações, Miguel se encantou pelo Reisado, tornando-se hoje um dos personagens centrais do cortejo, o rei, e destacando o jogo de espadas como sua parte favorita. Para ele, o ato de brincar está conectado à aventura e à preservação de uma identidade cultural viva.
João Gabriel Carlos Monteiro, 15 anos, reforça o papel do grupo como espaço de aprendizado e convivência. Recentemente integrado ao Reisado, ele reconhece o valor dos mestres que transmitem saberes de geração em geração, destacando a amizade, o aprendizado e a diversão como motivações para participar.
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Brincadeira como resistência cultural e memória viva
Carlos Robério Gonçalves, 14 anos, enfatiza que o brincar é fundamental para manter a cultura do Ceará presente e ativa. Participar dos ensaios e das apresentações é, para ele, uma forma de garantir que as tradições não se percam com o tempo, perpetuando histórias e práticas culturais entre os jovens.
Nas casas e ruas do Cariri, crianças como Ketley Isabelle Pereira, de 10 anos, mostram que o brincar também está ligado ao cotidiano e à afetividade. O quintal da avó, com suas galinhas e plantas, é um refúgio de diversão e contato com a natureza, enquanto a calçada de casa é palco de encontros com amigas. Maria Ester dos Santos, 12 anos, acrescenta o esporte e jogos populares como o volêi e a queimada à rotina, ressaltando a importância dos momentos coletivos.
Herança e convivência no aprendizado das brincadeiras
Para as crianças da Serra do Catolé, as brincadeiras são ensinadas pela convivência e pelas histórias familiares. Ketley lembra da avó que contou sobre jogos tradicionais como pião e trancelim, enquanto Ester destaca as experiências compartilhadas com a mãe e avó, que também brincavam de pular corda e cozinhar na infância. Allycia menciona primas e tias como referências no aprendizado de brincadeiras, valorizando a transmissão intergeracional.
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Fonte: edemossoro.com.br
Brincar é viver: a infância como espaço de liberdade e memória
Ester define o brincar como sinônimo de viver, um convite para que as crianças deixem o celular de lado e aproveitem as brincadeiras como forma de lazer e distração. Allycia complementa, lembrando que a infância oferece momentos únicos que não se repetirão na vida adulta. Para elas, as ruas, quintais e calçadas são territórios de imaginação e construção de memórias.
Ao olhar para o futuro, Allycia quer preservar na memória a brincadeira do esconde-esconde com sua primeira amiga, mesmo com a distância que as separa. Ketley valoriza o trancelim e as bonecas como símbolos de alegria compartilhada em diferentes espaços públicos. Ester, consciente da passagem do tempo, alerta outras crianças para que não deixem de brincar, afirmando que esses momentos são essenciais para construir boas lembranças.
Para Miguel, Carlos e João, o brincar fortalece amizades, ajuda a superar a timidez e abre caminhos para aprender coisas novas. João Gabriel convida outras crianças a se juntarem ao grupo, mostrando que o brincar é uma porta para descobertas e convivência.
