As Consequências do Conflito para o Agronegócio
A recente crise geopolítica, desencadeada pelo ataque dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada de sábado (03), traz profundas implicações para o agronegócio brasileiro. A captura de Nicolás Maduro marca um novo capítulo nas relações entre Brasil e o país vizinho, que, embora não esteja entre os principais parceiros comerciais do Brasil, vinha mostrando sinais de recuperação nas importações de produtos agrícolas.
Nos últimos anos, o Brasil exportou mais de US$ 1 bilhão anualmente em produtos agropecuários para a Venezuela, incluindo óleo de soja, açúcar, milho e arroz. Contudo, o conflito interrompeu abruptamente essa dinâmica, travando embarques e reacendendo preocupações sobre a inadimplência. A instabilidade política e a destruição de infraestrutura na Venezuela elevam as incertezas, levando empresas brasileiras a suspender novos contratos e exigir pagamentos antecipados.
Ainda que a Venezuela represente aproximadamente 0,6% das exportações agropecuárias brasileiras em 2024, sua importância como um mercado em recuperação não pode ser subestimada. O impacto vai além das finanças, colocando em risco uma estratégia que buscava diversificar as vendas externas do agronegócio.
Segmentos do Agronegócio Sob Tensão
Os efeitos da crise variam entre os diferentes segmentos do agronegócio brasileiro, criando um cenário desigual de impactos.
Grãos e Açúcar
Nos últimos meses, a Venezuela tinha ampliado suas compras de milho e arroz e era um importante destino para o açúcar brasileiro. A interrupção dessas exportações obriga os produtores a redirecionar as cargas para outros mercados, o que poderá pressionar os preços internos e aumentar os custos logísticos. Apesar da pequena participação do mercado venezuelano nas exportações totais, o efeito sobre as empresas que operam com margens estreitas já se faz sentir.
Carnes
O setor de carnes, por outro lado, enfrenta um impacto mais limitado. A Venezuela já foi um grande importador de carnes brasileiras, alcançando a marca de 360 mil toneladas em 2014. Entretanto, essa demanda caiu drasticamente ao longo da última década, com exportações previstas para 2024 totalizando apenas cerca de 5,2 mil toneladas, uma queda impressionante de 98,6%. Mesmo assim, frigoríficos que atendem nichos específicos ainda perderão um mercado importante.
Fertilizantes e Energia
A questão dos fertilizantes é uma das mais preocupantes. Aproximadamente 45% das exportações venezuelanas para o Brasil consistiam em fertilizantes e derivados de petróleo. A suspensão desse fluxo aumentará os custos de produção, em um momento em que o Brasil já depende fortemente de insumos importados. Buscar fornecedores mais distantes pode afetar as margens de lucro, e qualquer desestabilização no mercado do petróleo tende a encarecer também combustíveis e fretes.
Desafios Logísticos e Fronteiras Fechadas
As consequências logísticas foram imediatas. O governo venezuelano fechou a fronteira terrestre com o Brasil, especialmente na região de Pacaraima (RR), bloqueando o fluxo regular de cargas e pessoas. Apesar de o Brasil manter sua fronteira aberta, o bloqueio venezuelano prejudicou o transporte rodoviário, afetando desde pequenos comerciantes até grandes exportadores.
Os relatos de empresas do agronegócio brasileiro apontam para uma incerteza total quanto aos prazos e ao desembaraço de cargas já enviadas. Os produtores que dependiam do mercado venezuelano agora enfrentam desafios significativos para armazenar seus produtos ou redirecionar embarques, frequentemente enfrentando custos adicionais.
Riscos e Oportunidades no Cenário Atual
Neste contexto, surgem tanto riscos quanto oportunidades para o agronegócio brasileiro. Entre os riscos, destaca-se a potencial perda de um mercado em recuperação, o elevado risco de inadimplência e o aumento dos custos de produção. A instabilidade geopolítica poderá ainda levar a um estresse logístico significativo, com bloqueios e a necessidade de redirecionamento de cargas.
Por outro lado, o cenário também apresenta oportunidades, como a aceleração da diversificação dos mercados, o fortalecimento dos biocombustíveis e um papel mais ativo do Brasil nas discussões diplomáticas, que pode resultar em benefícios comerciais no futuro. Além disso, o país pode se posicionar para participar de um eventual processo de reconstrução na Venezuela, caso a situação política se estabilize.
Por fim, a crise representa um verdadeiro teste de resiliência para o agronegócio brasileiro. Embora as perdas sejam palpáveis, a resposta do setor pode se transformar em ajustes que reforcem sua competitividade e sustentabilidade a longo prazo.
