Oportunidades e Desafios para o Setor de Suínos
Após mais de duas décadas de negociações, o tão aguardado acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a ser formalizado. Esse tratado é visto como um passo significativo para a suinocultura do Brasil, embora especialistas afirmem que o impacto sobre as exportações deve ser moderado no curto prazo. Essa análise é apoiada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Segundo estudos do Cepea, a razão principal para a expectativa de efeito limitado está ligada ao volume da cota estipulada no acordo. Caso seja implementado, está prevista uma cota de 25 mil toneladas anuais de carne suína, abrangendo tanto produtos in natura quanto industrializados, com destino ao mercado europeu. Nesse cenário, uma tarifa reduzida de 83 euros por tonelada será aplicada, que é inferior às taxas atualmente vigentes na União Europeia.
No entanto, os pesquisadores alertam que essa cota é modesta, especialmente quando comparada ao total de carne suína que o Brasil exporta. Para volumes que excedem essa cota, as tarifas padrões da União Europeia permanecem, podendo ser bastante elevadas. Tal situação pode tornar inviáveis as exportações de produtos de maior valor agregado, como presuntos ou cortes defumados.
Diante desse panorama, o Cepea sugere que a Europa não deve, a curto prazo, se tornar um mercado significativo para a carne suína brasileira. No entanto, este acordo é considerado estratégico, uma vez que visa diversificar os mercados de exportação do país. A abertura, mesmo que parcial, fortalece a capilaridade das exportações brasileiras, reduzindo a dependência de poucos compradores e ampliando a presença do Brasil no comércio internacional.
Protagonismo do Agro Brasileiro
O tratado entre Mercosul e União Europeia também prevê a eliminação ou redução gradual de tarifas sobre uma variedade de produtos agrícolas e industriais, além da harmonização de regulamentações sanitárias, ambientais e regulatórias. Para o setor agro brasileiro, esse acordo promete aumentar a competitividade em cadeias estratégicas, incluindo carnes, grãos, açúcar, etanol, café e suco de laranja. Contudo, um desafio será atender à demanda por maior rastreabilidade, conformidade ambiental e transparência nas práticas produtivas.
Embora o acordo seja apoiado por muitos, ele enfrenta forte resistência de alguns setores agrícolas europeus, especialmente na França. Os agricultores franceses argumentam que a abertura para produtos do Mercosul pode gerar uma concorrência desleal, devido às diferenças nos custos de produção e nos padrões ambientais entre as duas regiões.
O presidente francês, Emmanuel Macron, expressou suas preocupações, afirmando que os benefícios econômicos do acordo seriam limitados para a Europa. Além da França, países como Irlanda, Hungria e Polônia também manifestaram oposição, apontando riscos para seus setores agropecuários locais.
Itália e o Apoio ao Acordo
No entanto, uma reviravolta ocorreu com o sinal positivo da Itália. O apoio romano ao acordo está condicionado à implementação de salvaguardas para proteger seus agricultores e ao aumento de recursos financeiros voltados ao setor agrícola. A Comissão Europeia se comprometeu a acelerar a liberação de até 45 bilhões de euros em apoio à agricultura, uma medida considerada pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como um passo importante para assegurar a sustentabilidade do setor.
Em resumo, o acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma nova era para a suinocultura brasileira, trazendo tanto oportunidades quanto desafios, em um cenário onde a diversificação de mercados se torna cada vez mais essencial para a competitividade do Brasil no comércio internacional.
