Análise do Cenário Econômico e Político no Fórum de Davos
Marcelo Noronha, presidente do Bradesco, trouxe à tona preocupações significativas sobre a política fiscal do Brasil durante o Fórum Econômico Mundial, que acontece em Davos, Suíça. Noronha destacou que, independentemente do resultado das eleições, o Brasil enfrenta um desafio estrutural em sua economia, especialmente em relação à dívida pública, que já ultrapassa 80% do PIB. Ele enfatizou a necessidade de Brasília atuar para estabilizar essa relação, de modo a evitar efeitos colaterais como a inflação e a perda de valor dos ativos.
Em uma entrevista ao Estadão/Broadcast, Noronha projetou uma desaceleração no mercado de crédito, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, e uma queda nas captações das empresas no mercado de capitais, que podem variar entre 10% e 20% devido ao clima eleitoral.
Expectativas para o Crescimento Global e Brasileiro
Durante a conversa, Noronha comentou sobre a geopolítica mundial e suas implicações para a economia. Ele observou que, apesar das tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, o crescimento global se manteve estável. Para 2026, o presidente do Bradesco prevê um crescimento do PIB mundial em torno de 3,2%, influenciado pela capacidade produtiva da China, que tem demonstrado uma tendência de exportar deflação.
No que diz respeito à economia brasileira, Noronha prevê um crescimento modesto de cerca de 1,5% em 2026, ainda que o desemprego permaneça baixo, na faixa de 5,5%. Ele destacou que o crescimento da massa salarial é um fator positivo, o que possibilita um maior consumo das famílias, embora este ainda esteja moderado.
Investimentos e Mercado de Capitais: O que Esperar?
Sobre os investimentos privados, Noronha mostrou-se cauteloso. Ele espera que, apesar de uma possível queda nas taxas de juros, os investimentos cresçam apenas 0,5% em 2026. Isso se deve ao ambiente eleitoral, que tende a provocar volatilidade e, consequentemente, inibições temporárias no apetite por investimentos.
Além disso, o presidente do Bradesco comentou sobre o cenário do mercado de capitais. Após um ano de crescimento robusto em 2025, com captações superiores a R$ 700 bilhões, a expectativa para 2026 é de uma redução de 10% a 20% nesse volume, especialmente devido à instabilidade política que o ano eleitoral traz.
O Crédito e os Desafios da Inadimplência
As projeções para o crédito em 2026 também foram discutidas, com Noronha prevendo uma desaceleração substancial. Ele espera que a expansão do crédito para pessoas jurídicas fique em 4,8%, uma queda em relação ao crescimento de 8% registrado em 2025. Para pessoas físicas, a expectativa é de um crescimento na faixa de 9%, uma diminuição em relação ao ano anterior.
A explicação para essa desaceleração, segundo Noronha, está ligada ao cenário econômico menos favorável e ao apetite reduzido a riscos, tanto por parte dos investidores quanto das instituições financeiras.
Captação de Recursos e Recuperação Judicial
No que tange às captações externas, Noronha afirmou que o Bradesco foi pioneiro em 2026 ao realizar uma emissão de US$ 750 milhões, o que indica que ainda há interesse por parte do mercado. Contudo, ele também advertiu que as emissões devem enfrentar uma queda, podendo variar entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões devido ao clima eleitoral.
Em relação às empresas endividadas, o executivo acredita que o pior das recuperações judiciais já tenha passado, embora haja setores, como o agronegócio, que ainda enfrentem desafios. Para Noronha, as taxas de juros elevadas representam um obstáculo significativo para empresas que já estão com margens de lucro comprimidas.
A Defesa da Independência do Banco Central
Outro ponto abordado por Noronha foi a defesa da independência do Banco Central, especialmente no contexto da liquidação do Banco Master. Ele endossou a importância do papel técnico da instituição em decisões dessa natureza, ressaltando que o debate sobre o assunto deve sempre respeitar as diretrizes da Justiça.
Finalizando a entrevista, Noronha reiterou que o Brasil precisa urgentemente enfrentar seu desafio fiscal, buscando estabilizar a dívida pública e promovendo um crescimento sustentável. O futuro, segundo ele, depende da combinação de políticas fiscais responsáveis e um ambiente econômico estável.
