Transformações no Cenário Agropecuário
O agronegócio brasileiro se prepara para um período de mudanças significativas em 2026, caracterizado por um cenário de maior seletividade no crédito e a consolidação de mercados. Após um ciclo de expansão robusta, o setor agora demanda maior eficiência financeira e uma estrutura jurídica sólida, além da habilidade de se adaptar a novas fontes de financiamento e modelos de negócio.
Produtores, distribuidores e investidores enfrentarão desafios expressivos, mas também encontrarão oportunidades estratégicas, especialmente aqueles que se mostrarem preparados para operar em um mercado mais concentrado, regulado e voltado para a sustentabilidade e a governança. A seguir, abordamos as principais tendências que devem impactar o agronegócio nos próximos anos e influenciar diretamente decisões contratuais, financeiras e patrimoniais ao longo da cadeia produtiva.
De acordo com Ruy Ramos de Toledo Piza, sócio da área de Agronegócio do FAS Advogados in cooperation with CMS, as tendências a serem observadas incluem:
1. Crescimento da Participação de Insumos Biológicos
O mercado de biofertilizantes e defensivos biológicos no Brasil apresenta um crescimento médio anual de 21%, um desempenho impressionante comparado à média global. Essa tendência é impulsionada pela crescente demanda por soluções sustentáveis, que também deve transformar o perfil dos profissionais de vendas no setor, valorizando cada vez mais aqueles com expertise em biotecnologia e nutrição foliar. Aproveitar essa movimentação exigirá um investimento significativo em capacitação técnica e na revisão dos portfólios comerciais.
2. Consolidação no Varejo de Insumos
A distribuição de fertilizantes e defensivos segue um intenso processo de consolidação, com grandes redes e cooperativas adquirindo concorrentes menores, especialmente os com altos índices de endividamento. Isso resulta em uma diminuição do número de revendas independentes, com fechamento de lojas em regiões como o Centro-Oeste e o Sul. A expectativa é que até 2026, o mercado se concentre ainda mais nas mãos de grandes distribuidoras.
3. Rigidez e Aumento do Crédito Bancário Tradicional
Com os juros elevados e a alta inflação, os bancos comerciais estão restringindo a oferta de crédito rural subsidiado. Dados recentes mostram uma redução na liberação de recursos por instituições públicas, e a previsão é que linhas de crédito como Pronaf e Pronamp se tornem mais disputadas e onerosas. Isso resultará em um menor acesso ao crédito convencional e em spreads mais altos até 2026.
4. Crescimento dos FIDCs no Financiamento do Agronegócio
Com a escassez de crédito bancário, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) voltados para o agronegócio devem ganhar relevância. Bancos e indústrias de insumos já demonstram interesse em atuar como cotistas desses fundos, utilizando recebíveis agrícolas para assegurar o fluxo financeiro do setor. A tendência é que esse modelo se expanda consideravelmente até 2026.
5. Aumento de Pedidos de Recuperação Judicial e Extrajudicial
O ciclo de custos elevados e margens apertadas tem levado um número crescente de produtores a buscar recuperação judicial ou extrajudicial. Culturas impactadas por condições climáticas adversas e pela queda de preços, como soja e milho na região Centro-Sul, são as mais afetadas. Além disso, a atuação da chamada “indústria da recuperação judicial” preocupa, pois nem sempre oferece soluções adequadas.
6. Renegociação e Alongamento das Dívidas Rurais
A crise de crédito deve gerar uma onda significativa de renegociações de dívidas. Tanto bancos públicos quanto privados têm tornado os prazos mais flexíveis e oferecido carências maiores. Até 2026, uma parcela considerável do crédito rural ativo deve passar por reestruturações, apresentando desafios na definição de taxas de juros e garantias.
7. Queda nos Preços da Terra e Aumento na Rotatividade de Propriedades
A forte valorização das terras agrícolas agora dá lugar a uma correção de preços para baixo. Projeções indicam uma desvalorização adicional em áreas que atualmente estão supervalorizadas, aumentando a oferta de propriedades à venda. Essa movimentação permite oportunidades de aquisição, mas também reflete um ambiente de crédito mais restrito e custos de capital elevados.
8. Expansão do Plantio de Eucalipto para Bioenergia
Impulsionado por políticas de energia renovável, o plantio de eucalipto está se expandindo, especialmente para bioenergia e biomassa industrial. Projetos indicam um crescimento de até 50% na área plantada em determinadas regiões até meados da década.
9. Redução Moderada do Rebanho Bovino
A elevada demanda externa por carne tem levado ao abate de matrizes, resultando em uma redução gradual do rebanho nacional. A previsão é de queda anual entre 2% e 3% até 2026, o que pode restringir a oferta futura e sustentar os preços no mercado internacional.
10. Revisão de Contratos de Arrendamento e Parceria Rural
Com margens encolhidas, mudanças tributárias e uma fiscalização mais rigorosa, os contratos de arrendamento e parceria rural devem passar por uma ampla revisão. A expectativa é de renegociações preventivas para adequar esses contratos às novas realidades econômicas e legislativas.
