Reflexão sobre o impacto do uso excessivo de celulares por crianças
Editorial – NP – Nos últimos anos, a realidade em torno do uso de celulares por crianças no Brasil se tornou alarmante. Dados anteriores revelavam que cerca de 50% das crianças até 12 anos já possuíam um celular, mas essa estatística agora apresenta um cenário ainda mais preocupante. O acesso a esses dispositivos está acontecendo cada vez mais cedo, com muitos pequenos tendo seus primeiros celulares antes dos 10 anos, e em alguns casos, até mesmo antes dos 8.
Os celulares se tornaram a principal porta de entrada para a internet, muitas vezes a única. Eles estão presentes em todos os lugares: no quarto, na mochila, na cama, no bolso. As crianças ficam sozinhas com os dispositivos, que não têm filtro, nem pausa, e frequentemente sem a supervisão de um adulto. O que antes era uma exceção, hoje se tornou uma rotina cotidiana, e essa rotina molda comportamentos.
Pesquisas recentes apontam um fator comum: o problema não está em demonizar a tecnologia, mas sim no uso precoce, contínuo e sem limites. Casos de dificuldade de concentração, distúrbios no sono, irritação, ansiedade e exposição a conteúdos inapropriados para a faixa etária da criança têm aumentado. Embora não haja uma única causa, o uso excessivo de celulares se apresenta como um claro fator de risco.
A questão não é se a criança sabe utilizar o celular — isso é certo. O verdadeiro questionamento é: quem está educando essa experiência digital? Quem estabelece regras sobre horários, tipos de conteúdo, momentos de pausa e consequências? A presença efetiva dos adultos é essencial. Apenas entregar um celular sem orientação não representa autonomia, mas sim um abandono disfarçado de modernidade.
O debate em torno desse tema está avançando globalmente e agora ganha força no Brasil, especialmente com iniciativas como o ECA Digital. Essa legislação não busca censurar, mas sim proteger. A infância não é um período para excessos, mas sim um tempo para limites, convivência, criatividade e formação de vínculos humanos.
A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta; e as crianças não devem ser tratadas como experiências. Assim, a reflexão que fica é: você está criando um filho ou simplesmente entregando uma tela para que ele se vire sozinho?
