Crescimento no Agronegócio
O recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia promete trazer mudanças expressivas para o Brasil, especialmente no agronegócio. Um estudo intitulado “Avaliação dos impactos do acordo de livre comércio Mercosul-UE”, elaborado por pesquisadores da Diretoria de Estudos Internacionais (Dinte) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que o setor pode experimentar um aumento de 2% na produção ao longo dos próximos 16 anos, o que representa um acréscimo aproximado de US$ 11 bilhões. Os principais beneficiados são as carnes de suínos e aves, que, juntamente com outros produtos alimentares, óleos e o setor de pecuária, concentrarão cerca de 75% desse crescimento.
No entanto, é importante destacar que a expansão em outras áreas, como na carne bovina, açúcar e arroz processado, não deve ocorrer de forma significativa. O motivo? As exportações para a União Europeia não correspondem a uma parte substancial da produção interna ou das exportações totais. Assim, a expectativa de aumento de cotas de exportação se limita principalmente às carnes suínas e de aves, enquanto os demais produtos não deverão ter um impacto tão expressivo.
A Visão da ABPA
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) reforça essa análise. Em comunicado, a entidade esclarece que, no caso da carne de frango, o novo acordo não altera o sistema de cotas existente entre o Brasil e a UE. O que o acordo acrescenta é um novo contingente tarifário, que isenta tarifas sobre 180 mil toneladas anuais de produtos, divididos em duas categorias: 50% com osso e 50% sem osso. Essa nova cota será implementada gradualmente, em seis etapas anuais, até atingir o volume total planejado ao final do sexto ano.
Além disso, para a carne suína, o acordo introduz um contingente tarifário preferencial específico, que nunca havia sido oferecido ao Brasil antes. A cota final será de 25 mil toneladas anuais, com uma tarifa reduzida de 83 euros por tonelada, bem abaixo do imposto padrão fora desse contingente. Assim como no caso da carne de frango, este processo também ocorrerá em seis etapas anuais, permitindo um aumento gradual da produção.
Impactos na Indústria de Transformação
Os efeitos do acordo não se limitam apenas ao agronegócio. O estudo indica que a indústria de transformação também poderá ter um impacto positivo, com um crescimento projetado de aproximadamente US$ 500 milhões na produção total. Contudo, essa elevação é compensada por perdas em setores como veículos, metais ferrosos e artigos do vestuário. Por outro lado, o crescimento será impulsionado por áreas como calçados, artefatos de couro, celulose e papel.
Os pesquisadores destacam que o acordo pode permitir que o Brasil aumente suas exportações para a União Europeia, especialmente em setores onde a demanda europeia é alta. “Esses resultados contradizem a crença comum de que um acordo com economias desenvolvidas seria prejudicial à indústria local”, afirmam os autores do estudo.
Comércio Exterior em Transformação
Ao analisar o comércio exterior do Brasil, o estudo aponta que o acordo trará tanto a criação quanto o desvio de comércio. Projeções indicam que as exportações brasileiras para a União Europeia podem crescer impressionantes 22,6%, totalizando cerca de US$ 10,2 bilhões. Por outro lado, as exportações para outros países do Mercosul devem cair 3,3%, e para o resto do mundo, a redução será de 0,5%.
Além disso, as importações brasileiras da UE estão projetadas para aumentar em 72%, também refletindo o desvio de comércio, especialmente em relação ao resto do mundo, onde as importações podem cair 11%. O impacto sobre as compras do Mercosul deve ser semelhante, com uma queda esperada de 3,3%. Essas mudanças estruturais no comércio exterior ressaltam as novas dinâmicas que o acordo pode estabelecer nas relações comerciais do Brasil com a Europa e o mundo.
