Impactos Geopolíticos no Agronegócio Brasileiro
A escalada das tensões no Oriente Médio, iniciada após os ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. As repercussões não se restringem apenas às questões geopolíticas: elas têm potencial para gerar impactos econômicos significativos, afetando diretamente as exportações agrícolas, os custos de produção e a logística internacional.
De acordo com um estudo do Insper Agro Global, o Oriente Médio se configura como um mercado crucial para o Brasil. Em 2025, a região absorveu impressionantes US$ 12,4 bilhões em exportações do agronegócio nacional, representando 7,4% das vendas externas do setor. Os principais destinos dessas exportações incluem Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
O Irã, em particular, destaca-se como um parceiro comercial significativo. No ano de 2025, o país foi responsável por US$ 2,9 bilhões em compras de produtos agropecuários brasileiros, correspondendo a 23,6% das exportações do Brasil para o Oriente Médio.
“O Oriente Médio é um mercado estratégico para o agronegócio brasileiro e, em várias cadeias produtivas, a região tornou-se parte essencial do escoamento da produção”, comenta Marcos Jank, professor e coordenador do Insper Agro Global.
Dependência de Produtos Específicos
Mais do que os números expressivos das exportações, o que preocupa é a dependência de certos produtos em relação ao mercado do Oriente Médio. A região é responsável por:
- 29% das exportações brasileiras de carne de frango (cerca de 1,5 milhão de toneladas)
- 31,5% das exportações de milho (aproximadamente 12,9 milhões de toneladas)
- 17% das vendas externas de açúcar (cerca de 5,8 milhões de toneladas)
- 6,5% das exportações de carne bovina (220 mil toneladas)
No caso específico do milho, a situação é ainda mais crítica. O Irã se tornou o maior importador do milho brasileiro em 2025, comprando aproximadamente 9 milhões de toneladas, o que equivale a 22% de todo o milho exportado pelo Brasil naquele ano.
“Uma interrupção prolongada nesse comércio pode gerar riscos comerciais significativos, especialmente para as cadeias produtivas que dependem fortemente das exportações para essa região”, alerta Jank.
Riscos nas Rotas Marítimas
Outro ponto de preocupação gira em torno das rotas comerciais marítimas. O conflito no Oriente Médio aumenta a instabilidade em duas passagens estratégicas essenciais para o comércio global:
- Estreito de Ormuz, onde cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural transita
- Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Canal de Suez
Qualquer problema nessas rotas pode resultar em desvios, aumento do custo do frete e elevação das taxas de seguro marítimo, o que impactaria diretamente as despesas logísticas dos exportadores brasileiros.
“A instabilidade nessas rotas pode provocar um choque de oferta, afetando não apenas a região, mas também as cadeias produtivas em níveis globais”, destaca Jank.
Os Efeitos nos Fertilizantes e na Energia
A influência do conflito também pode se estender ao campo brasileiro, afetando a disponibilidade de fertilizantes e energia. O Oriente Médio é um fornecedor importante de insumos agrícolas, com 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025 vindo dessa região.
Além disso, o Golfo Pérsico concentra uma grande parte da produção e exportação mundial desses insumos, incluindo:
- 45% da ureia global
- 25% da amônia
- 20% do fosfato diamônico (DAP)
Conflitos na área tendem a elevar os preços do petróleo e do gás natural, que são fundamentais para a produção de fertilizantes nitrogenados, impactando assim os custos de produção agrícola no Brasil.
“Choques no mercado de energia rapidamente se refletem nos custos dos fertilizantes, impactando a estrutura de custos da produção agrícola”, afirma Marcos Jank.
Projeções para o Futuro
Analistas acreditam que a intensidade dos efeitos dependerá da evolução do cenário militar e da continuidade do fluxo marítimo internacional. Se as tensões forem controladas rapidamente, os impactos poderão se restringir a uma volatilidade temporária nos preços de fretes, energia e insumos. Por outro lado, uma escalada prolongada poderá gerar pressões mais intensas sobre os custos, as margens e as decisões de produção no agronegócio.
Apesar das incertezas, o setor agrícola brasileiro tem demonstrado resiliência, adaptando-se e buscando diversificação de mercados.
