Análise do Papel de Alexandre de Moraes na Política Brasileira
Flávio Gordon reflete sobre a crescente polarização política no Brasil, ressaltando a figura de Alexandre de Moraes como um protagonista simbólico no atual cenário. O escritor Ruy Castro, em sua primeira coluna de 2026 na Folha de S.Paulo, expressa um descontentamento que vai além das palavras, revelando o clima espiritual do país, profundamente enraizado em um ciclo de ódio coletivamente cultivado. Enquanto Jair Bolsonaro enfrenta dificuldades em meio a problemas de saúde e uma queda política significativa, a animosidade contra ele se intensifica, revelando que a compaixão e a curiosidade humana parecem ter desaparecido. O advogado e ex-presidente é tratado como um personagem sacrificial, num jogo que transcende disputas políticas comuns e adentra em um nível mais profundo de rituais sociais.
A análise de Gordon evoca a teoria do antropólogo francês René Girard, que sugere que sociedades em crise buscam a reconciliação por meio da violência direcionada a uma vítima comum. Essa dinâmica é visível na forma como a sociedade brasileira lida com a figura de Bolsonaro, que se tornou o bode expiatório de frustrações e medos coletivos. Girard destaca que, após períodos prolongados de tensão e rivalidades, a má sorte e os conflitos levam à escolha de uma vítima para expiação dos males da coletividade. A trajetória de Bolsonaro, marcada por uma série de derrotas, não arrefece o ódio, mas intensifica a busca por um ‘demônio’ a ser eliminado.
O pertinente exemplo de Apolônio de Tiana, um místico pagão do século II, ilustra bem essa lógica sacrificial. Durante uma epidemia de peste em Éfeso, Apolônio se apresenta como o salvador da cidade, convocando a população a apedrejar uma figura indefesa, um mendigo. A hesitação inicial dos cidadãos diante da brutalidade do ato é rapidamente superada quando a narrativa se transforma, e eles convencem-se de que o mendigo é o responsável por seus infortúnios. O ato de apedrejamento se torna um ritual coletivo, liberando a tensão acumulada e restaurando temporariamente a ordem.
Essa estrutura de sacrifício é o que, segundo Gordon, se reflete na perseguição a Jair Bolsonaro. Assim como Apolônio, Alexandre de Moraes se posiciona como o ‘curandeiro togado’ que busca expurgar a ‘ameaça antidemocrática’ representada pelo ex-presidente. As ações de Moraes, desde inquéritos até decisões controversas, têm funcionado como ‘pedras lançadas’ em um processo de linchamento simbólico, onde a necessidade de um culpado prevalece sobre a busca pela verdade.
À medida que novas estratégias de acusação se somam, a narrativa ligada ao ex-presidente se fortalece, independentemente da veracidade das acusações. A lógica ritualística se estabelece, e a responsabilidade moral pelo linchamento se dissolve em uma unanimidade acusatória, onde todos se tornam cúmplices da violência institucional. A condenação não está apenas no ato, mas na própria existência da vítima, que deve continuar sendo vista como culpada, mesmo diante da fragilidade e da derrota.
O contraste entre as abordagens de justiça torna-se evidente. Enquanto a justiça cristã promove a reflexão sobre a responsabilidade do acusador, a justiça sacrificial, representada por Moraes, busca restaurar a ordem por meio da eliminação do ‘demônio’. A busca por reconciliação se transforma em uma guerra cultural e espiritual, onde a eliminação do bode expiatório se torna um objetivo primordial, mesmo que temporário. Este ciclo de violência e sacrifício não leva a uma solução definitiva, mas perpetua novos conflitos. O que se observa no Brasil, segundo Gordon, é a rejeição da moral cristã que, antes, poderia ter interrompido essa espiral de violência.
Assim, Alexandre de Moraes se torna o sumo-sacerdote do que se revela como um ritual contemporâneo de linchamento, no qual Jair Bolsonaro, independentemente de sua culpa, assume o papel da vítima necessária para que a sociedade possa acreditar em sua própria purificação. A análise de Gordon nos leva a refletir sobre a profundidade das divisões sociais e a necessidade de compreender que, para muitos, a salvação coletiva continua dependendo da perpetuação de um mito sacrificial.
