Da Pesquisa ao Processo Industrial
Um marco importante para a ciência e o desenvolvimento regional do Ceará está prestes a acontecer. A Universidade Estadual do Ceará (Uece) inaugura, ainda no primeiro semestre de 2026, a primeira biofábrica dedicada ao processamento industrial de água de coco em pó e compostos lácteos no município de Jaguaretama, região com forte tradição na caprinocultura. Essa iniciativa é resultado de mais de quatro décadas de pesquisa e inovação, traduzindo o conhecimento acadêmico em aplicações práticas que impactam diretamente a nutrição e a saúde da população.
Origem da Tecnologia e Avanços Científicos
O desenvolvimento dessa tecnologia teve início na década de 1980, nos laboratórios da Faculdade de Veterinária da Uece (Favet/Uece), sob a liderança do professor emérito José Ferreira Nunes, referência nacional em biotecnologia da reprodução animal. Inicialmente, os estudos focavam no uso da água de coco para a conservação do sêmen caprino e ovino, culminando na primeira patente biológica internacional do Brasil nessa área. Ao longo dos anos, a pesquisa evoluiu para a criação da água de coco em pó (ACP), ampliando seu potencial de uso em diversas áreas, como nutrição clínica, regeneração de tecidos, conservação de órgãos e nanomedicina.
Produção de Composto Nutricional para Populações Vulneráveis
A biofábrica terá capacidade para processar cerca de 2 mil litros diários de matéria-prima para a fabricação do ACP Lacte, um composto nutricional que combina água de coco em pó com leite de cabra. Patenteada em 2019 por pesquisadores da Uece, essa tecnologia foi especialmente desenvolvida para atender populações vulneráveis, incluindo crianças, idosos e pacientes hospitalizados. O objetivo principal é contribuir no combate à fome proteica e oferecer alternativas eficazes de suplementação alimentar, reforçando o papel da ciência na promoção da saúde pública.
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Benefícios Clínicos e Aplicações na Saúde
Além da função nutricional, os estudos clínicos realizados destacam os efeitos positivos da água de coco em pó na área da saúde. A linha ACP Derma, por exemplo, tem sido usada no tratamento de feridas crônicas, como o pé diabético, apresentando resultados promissores na redução do tempo de cicatrização. Essas descobertas ampliam as possibilidades de aplicação da biotecnologia em tratamentos médicos, mostrando a importância da pesquisa contínua para inovação em saúde.
Integração com Agricultura Familiar e Desenvolvimento Regional
A implantação da biofábrica reforça a cooperação entre universidade, setor produtivo e agricultura familiar no Ceará. Parcerias com o Instituto Ecoco do Brasil, a Associação dos Caprinovinocultores de Jaguaretama (Capritama) e a Cooperativa Agroindustrial do Vale do Jaguaribe (Cooprivale) fortalecem a cadeia produtiva local. Além disso, o projeto impulsiona a pesquisa e a pós-graduação em biotecnologia na Uece, alinhando-se à trajetória de excelência do professor José Ferreira Nunes, que também participou da criação da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio). Atualmente, o grupo da Uece acumula dezenas de projetos, centenas de artigos científicos e 12 patentes relacionadas à biotecnologia da água de coco, consolidando o Ceará como referência nessa área.