Decisões Controversas e Implicações Políticas no Rio de Janeiro
Na segunda-feira, um dos últimos atos do ex-governador Cláudio Castro foi a concessão de superpoderes à Secretaria Estadual da Casa Civil, o que, segundo análises, possibilitou que aliados continuassem a manipular a máquina pública com o intuito de influenciar a sucessão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e a disputa pelo cargo-tampão no Palácio Guanabara. A Justiça, no entanto, reverteu essa decisão na noite de anteontem, alegando que o decreto conferia à Casa Civil atribuições exclusivas do governador, incluindo um controle abrangente sobre nomeações e exonerações.
De segunda-feira até a data de ontem, 125 exonerações foram publicadas no Diário Oficial, muitas delas em setores estratégicos como a Secretaria de Educação e o Detran-RJ, que eram dominados pelo deputado cassado Rodrigo Bacellar (União). Bacellar, que foi preso novamente ontem, teve suas indicações sistematicamente eliminadas após a nomeação de Marco Simões como novo secretário da Casa Civil. Ele substitui Nicola Miccione, um dos principais aliados de Castro.
Fontes próximas ao governo afirmam que o objetivo dos superpoderes era promover uma redistribuição nas pastas do governo, sem que isso necessariamente passasse pela aprovação do governador em exercício, Ricardo Couto, atual presidente do Tribunal de Justiça. Durante este processo, uma depuração de cargos ligados a Bacellar já estava em andamento. No dia seguinte à eleição relâmpago que colocou Douglas Ruas (PL) na presidência da Alerj, membros da oposição relataram uma série de exonerações, interpretadas como retaliações a deputados que não apoiaram a candidatura do governo.
Consequências das Exonerações e Pressões Políticas
Os cargos recém-vagos estão sendo alocados a aliados do governo, sendo alvo de negociações para assegurar apoio a Ruas. Um levantamento realizado pelo GLOBO, com base nos atos publicados nos diários oficiais, revela que a Secretaria de Energia e Economia do Mar foi a mais impactada, com 26 exonerações. A Secretaria de Educação seguiu com 25, refletindo a influência de Bacellar, que havia indicado a ex-secretária Roberta Barreto. Outras pastas, como a Secretaria de Governo e o Detran, também sofreram mudanças significativas.
O deputado Vitor Júnior (PDT), que impetrou um dos pedidos judiciais que resultaram na suspensão da votação na Alerj, denunciou que os cargos nas secretarias estão sendo usados como moeda de troca. Segundo ele, a pressão está se estendendo até os prefeitos, que estariam sendo instigados a garantir que seus aliados na Alerj votassem em Ruas. Ele ainda mencionou que, nas retaliações contra aqueles que se recusaram a ceder, ocorreram exonerações até mesmo dentro da própria Alerj.
— A corrida pelo controle da máquina estatal é intensa. A presidência da Alerj oferece ao deputado uma posição na linha sucessória do governo, ampliando seu poder. Observamos o uso dessa estrutura para pressionar tanto deputados quanto prefeitos — declarou Vitor Júnior.
Em resposta, o governo do Estado negou que as exonerações tenham relação com a vinculação de servidores a Bacellar ou qualquer tipo de retaliação política. Em nota, a Secretaria da Casa Civil enfatizou que as nomeações e exonerações seguem um fluxo administrativo controlado e são baseadas nas necessidades da gestão.
Suspensão e Críticas ao Uso da Máquina Pública
O decreto que conferia superpoderes à Casa Civil permitia ao titular da pasta, com exceção de secretários e presidentes de autarquias, realizar nomeações e administrar a gestão orçamentária do estado. Contudo, a Justiça suspendeu a medida, citando que a condução orçamentária é uma das funções primordiais do governador e não pode ser delegada a terceiros de maneira indiscriminada. A magistrada Cristina Tereza Gaulia, do Tribunal de Justiça do Rio, ressaltou que o estado de instabilidade política exige cautela nas decisões que afetam a gestão pública.
No entanto, informações indicam que deputados que se comprometeram a apoiar Ruas já estão recebendo cargos em pelo menos dois órgãos governamentais. Relatos sugiram que, durante um almoço no restaurante Assador Rios, os parlamentares foram orientados sobre possíveis perdas de espaço no governo caso não apoiassem Ruas.
Adicionalmente, houve relatos de que parlamentares que não apoiaram o novo presidente da Alerj foram notificados sobre a suspensão de projetos de asfaltamento pela Secretaria de Cidades, um órgão que Rubas liderava até recentemente. A administração não confirma essa pressão, mas menciona que, com a ascensão de Ruas, é natural que parlamentares descontentes percam espaço político.
Demandas por Voto Secreto e Investigações
Em meio a essas denúncias, o PDT e outros partidos de oposição estão articulando novas ações judiciais. A meta é aprofundar investigações sobre o suposto uso ilícito da máquina estatal e solicitar que futuras eleições para a presidência da Alerj sejam realizadas em voto secreto, a fim de evitar retaliações.
Além disso, a Alerj já iniciou um desmonte da estrutura vinculada a Bacellar, com a exoneração em massa de assessores que atuavam em seu gabinete. Essa ação foi formalizada no Diário Oficial e inclui o desligamento de 34 assessores, afetando todos os níveis de seu gabinete. Essa decisão foi tomada pelo presidente interino, Guilherme Delaroli (PL), em conformidade com a ordem da ministra Cármen Lúcia, do TSE, que determinou a execução imediata da perda de mandato.
A situação é alarmante, não apenas pela natureza das exonerações, mas também pelo impacto que isso pode ter na governança e no futuro político do Rio de Janeiro, onde a instabilidade tem sido uma constante.
