Reflexões sobre a Toxicidade da Produtividade
Nos últimos anos, tenho expressado meu descontentamento com certas expressões que, embora pareçam reclamações, na verdade, são autoelogios que exaltam a tão discutida cultura da produtividade tóxica. Um exemplo disso é a frase “trabalhe enquanto eles dormem”, que encapsula a pressão incessante por desempenho e a constante vigilância da produtividade. Essa ideia insinua que, para sermos melhores, devemos sacrificar nossos momentos de descanso em prol de um ideal de performance que, na prática, nos leva a um estado de exaustão.
A realidade é clara: essa mentalidade nos transformou em um país que lidera os índices de afastamento do trabalho devido a problemas de saúde mental. Ao observarmos aqueles que propagam essas máximas de produtividade, é fácil notar que muitos deles se beneficiam de privilégios que sustentam esse modo de vida. Será que quem promove essas ideias está realmente acordado e trabalhando enquanto todos os outros estão se recuperando em seus leitos? É fundamental refletir antes de reproduzirmos o mantra “trabalhe enquanto eles dormem”.
A expressão, por si só, sugere que, ao utilizarmos um tempo que deveria ser coletivo para descanso — como a hora de dormir — estaríamos criando uma vantagem competitiva. Embora tenha pesquisado sobre essa dinâmica, não posso deixar de questionar: qual é o verdadeiro sucesso que buscamos? Essa pressão faz com que muitos abdiquem do sono e, em alguns casos, recorram a medicamentos para aguentar as longas jornadas de trabalho. E a que custo?
A Cultura da Exaustão e suas Consequências
Essas frases se tornam uma espécie de “cola” que sustenta a cultura da produtividade tóxica, alimentando e perpetuando estilos de vida que nos levam a um desgaste extremo. A sociedade do cansaço prospera em ideias que se tornam comuns no nosso cotidiano, pois são facilmente aceitas e, muitas vezes, admiradas. Mas, no fundo, não passam de promessas vazias. O mundo 24/7 se beneficia quando renunciamos ao sono em nome do trabalho, do consumo ou do envolvimento em plataformas digitais. É crucial lembrar que essa incessante produtividade não é motivada por uma genuína preocupação com nosso sucesso, mas sim pelo desejo de manter a roda girando, enquanto alguém lucra com nossa exaustão.
O problema se agrava quando internalizamos essas ideias e começamos a nos vangloriar de ações que, à primeira vista, podem parecer dignas de elogio. Há quem se orgulhe de ter trabalhado em feriados, de ignorar a hora do almoço ou de carregar a bandeira do trabalho durante as férias. Assim, aquela pessoa que se permite usufruir de um feriado ou de um momento de descanso é frequentemente rotulada de folgada ou preguiçosa, criando um ciclo de culpa e fracasso que permeia nossas relações sociais e profissionais.
O Despertar para uma Nova Perspectiva
Considero essa lógica uma ofensa. Já mencionei, em outros textos, diversos pesquisadores que criticam essa mentalidade. Entre eles, Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do Cansaço”; Tricia Hersey, que escreveu “Descansar é Resistir”; e Jonathan Crary, que aborda a vida 24/7. Quando digo “durma enquanto eles dormem”, quero mais provocar uma reflexão sobre essas ideias e o papel que desempenhamos ao promovê-las do que sugerir que devemos simplesmente ignorar nossas obrigações. Entendo que para muitos, a opção de desconsiderar o trabalho noturno não é viável, e essa é mais uma perversidade dessa expressão — transformar a exaustão em um símbolo de força.
Por fim, é necessário reconhecer que o que acontece com o nosso sono reflete um fenômeno mais amplo. Isso se estende à arte, às festividades, aos rituais e à convivência. Estamos vendo nosso tempo, que deveria ser dedicado a experiências que nos humanizam, sendo comprimido em prol do que é utilitário ou produtivo. Portanto, ao refletir sobre nossa relação com a produtividade, é vital questionar: até que ponto essa busca incessante por desempenho vale a pena?
