A Crescente Pressão sobre o Setor Agropecuário Brasileiro
Recentemente, a escalada nos preços dos fertilizantes, aliada a novas restrições de exportação impostas por China e Rússia, evidenciou a vulnerabilidade do Brasil em relação aos insumos importados. Essa situação aumenta o risco de elevação nos preços dos alimentos, o que é uma preocupação constante para os produtores rurais do país.
A intensa alta no valor da ureia, que é um dos principais fertilizantes, foi impulsionada pelo aumento dos conflitos no Oriente Médio, envolvendo o Irã, um dos maiores produtores globais. Nos últimos meses, esses dois países, que dominam a exportação de fertilizantes, começaram a restringir suas vendas, complicando ainda mais a situação.
Os agricultores enfrentam uma tarefa árdua ao tentar controlar seus gastos, o que pode levar a uma inflação considerável nos preços dos alimentos já a partir da próxima safra. Segundo um relatório da consultoria agro Itaú BBA, a ureia teve um aumento expressivo, atingindo US$ 710 por tonelada nos portos brasileiros — um salto de aproximadamente 50% em apenas 30 dias.
Impacto do Conflito e Interrupções Logísticas
Outros tipos de fertilizantes também estão sob pressão, apesar de uma intensidade um pouco menor. Essa volatilidade pode ser atribuída à importância do Oriente Médio e do Norte da África como fornecedores de nitrogenados e rocha fosfática. Adicionalmente, a situação no Mar Vermelho tem prejudicado o fluxo logístico, aumentando o tempo de entrega em até 15 dias e encarecendo consideravelmente o frete.
Com a expectativa de escassez de fertilizantes químicos, tanto a Rússia quanto a China estão tomando medidas drásticas. A Rússia, por exemplo, suspendeu temporariamente suas exportações de nitrato de amônio, enquanto a China decidiu restringir suas vendas de fertilizantes fosfatados. Essas ações visam priorizar suas economias internas, reduzindo ainda mais a oferta no mercado global.
Consequências Potenciais para o Setor Agropecuário
Embora a diminuição da oferta e o aumento dos preços não afetem imediatamente o agronegócio brasileiro, já que os fertilizantes necessários para a atual safra já foram comprados, o cenário pode mudar se essa situação persistir até o segundo semestre. Isso significaria que as novas remessas chegariam ao Brasil com preços já elevados, impactando diretamente o início do plantio da safra 2026/27.
Os analistas da Cogo Inteligência em Agronegócio também apontam que, além do mercado de fertilizantes, a volatilidade da moeda e os altos custos de frete global estão pressionando as previsões para as próximas safras. O recente aumento nos preços do petróleo e as mudanças nas rotas de transporte, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, também elevam os custos de transporte marítimo.
Riscos e Desafios do Plano Nacional de Fertilizantes
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já alertou em boletins recentes sobre o “elevadíssimo risco” que a situação representa para o setor de fertilizantes no Brasil, com potencial para aumentar os preços internos e até causar desabastecimento na safra do segundo semestre.
A atual situação demonstra que o Brasil continua vulnerável às oscilações do mercado externo e que a execução do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) não trouxe os resultados esperados. O objetivo do PNF é reduzir a dependência externa, que atualmente se encontra em 85%, para uma faixa de 45% a 50% até 2050. Contudo, o avanço nesse sentido tem sido praticamente inexistente nos primeiros anos de implementação.
A senadora Tereza Cristina (PL-SP), que lançou o PNF quando estava à frente do Mapa, criticou a falta de ação do governo. “A impressão que fica é que não aprendemos nada com a crise anterior. Agora, estamos enfrentando uma situação ainda pior, com o risco de aumento nos preços e problemas logísticos”, afirmou. Ela ressaltou a necessidade urgente de um comitê de crise para avaliar alternativas e evitar que o país enfrente um colapso no fornecimento de fertilizantes.
Desafios à Produção Nacional de Fertilizantes
Ademais, a baixa competitividade da produção nacional não é resultado da escassez de matérias-primas, mas sim de entraves estruturais que dificultam a expansão da produção local. No caso dos fertilizantes nitrogenados, o principal desafio é o alto custo do gás natural, que, enquanto nos Estados Unidos e na Rússia é vendido entre US$ 2 e US$ 4 por milhão de BTUs (MMBtu), no Brasil chega a custar até US$ 14.
Já para a produção de potássio, os projetos enfrentam barreiras regulatórias e disputas judiciais, especialmente em áreas sensíveis, como a bacia do Rio Amazonas. Além disso, a chamada “tarifa inversa” é uma crítica recorrente do setor, uma vez que torna o fertilizante brasileiro mais caro que o importado. Isso, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), desestimula investimentos e perpetua a dependência externa, impedindo um avanço significativo na produção nacional.
