Determinantes Sociais e Desigualdade na Saúde
Os aspectos que mais influenciam a saúde das populações não se restringem apenas aos hospitais. Fatores como moradia, renda, nível educacional, acesso à tecnologia, mudanças climáticas e decisões econômicas moldam diretamente a qualidade de vida e a expectativa de vida das pessoas. Essa é a realidade destacada por Etienne Krug, médico e diretor do Departamento de Determinantes Sociais de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para Krug, entender esta complexa rede de influências é crucial para abordar as desigualdades que persistem ao longo do tempo, mesmo que isso torne a criação de políticas concretas um desafio significativo.
“Todos esses aspectos da sociedade exercem impacto na saúde. E são muitos: habitação, digitalização, conflitos armados, mudanças climáticas. Não devemos ignorar esses fatores apenas porque são complexos”, afirmou Krug em entrevista à Folha de S.Paulo. Ele participou, na semana passada, da Cúpula da Parceria para Cidades Saudáveis, realizada no Rio de Janeiro. A iniciativa, que conta com o apoio da Bloomberg Philanthropies, em colaboração com a OMS e a Vital Strategies, visa desenvolver políticas públicas focadas na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e lesões evitáveis.
Evolução no Pensar a Saúde Pública
Krug aponta uma evolução no entendimento sobre saúde pública, que anteriormente se concentrava no combate a doenças infecciosas e no funcionamento de hospitais. Agora, a atenção se volta para as doenças crônicas e, mais recentemente, para os determinantes sociais que impactam a saúde. Dados recentes da OMS revelam uma diferença alarmante na expectativa de vida entre os países, com uma variação de até 33 anos entre nações com melhores e piores indicadores. Além disso, 94% das mortes maternas ocorrem em países de baixa e média renda.
Apesar dos avanços, como a redução de 40% na mortalidade materna entre 2000 e 2023, as desigualdades de renda dentro dos países aumentaram, o que tem gerado efeitos negativos na saúde. A pandemia de Covid-19 também reverteu parte desses progressos, impactando de maneira desproporcional as parcelas mais pobres da população. Para Krug, os determinantes sociais têm um impacto maior do que fatores individuais, como genética ou acesso a serviços de saúde. “Se não abordarmos a desigualdade, discriminação e condições de vida, perderemos a chance de gerar um impacto significativo na saúde pública”, enfatiza.
Disparidades de Saúde em Diferentes Contextos
A desigualdade na saúde se manifesta de formas diversas em diferentes contextos. Entre as populações indígenas, por exemplo, a expectativa de vida pode ser mais de uma década inferior em países como Canadá e Austrália, enquanto em algumas comunidades da África essa diferença supera os 20 anos. Na Europa, homens com menor escolaridade apresentam uma expectativa de vida que supera em mais de dez anos a de seus colegas mais educados, especialmente em países como Hungria e Polônia. Nos Estados Unidos, a mortalidade materna entre mulheres negras é quase três vezes superior à das mulheres brancas.
No Brasil, a situação não é diferente. Em São Paulo, a diferença na expectativa de vida entre regiões pode chegar a impressionantes 24 anos. Moradores do Alto de Pinheiros, por exemplo, vivem, em média, entre 82 e 85 anos. Em contraste, aqueles das áreas de Anhanguera e Cidade Tiradentes têm uma expectativa média de vida que varia entre 58 e 62 anos. A localização geográfica é um fator determinante na saúde, pois metade da população mundial reside em áreas urbanas, e cerca de um quarto vive em assentamentos precários, tornando-se mais suscetível a doenças.
Ações Necessárias e Desafios Futuro
Para avançar na superação dessas desigualdades, a OMS propõe uma abordagem mais pragmática. Um dos objetivos centrais é a criação de métricas comparáveis entre países. “Se não entendermos a magnitude do problema e continuarmos a coletar dados de maneira não padronizada, não conseguiremos monitorar o progresso”, afirma Krug. A OMS já lançou um sistema internacional de monitoramento que alguns países já estão adotando.
Outra prioridade é identificar políticas que sejam custo-efetivas, com ênfase na proteção social. Atualmente, mais de 3,8 bilhões de pessoas estão sem qualquer tipo de cobertura social. “Está comprovado que oferecer algum nível de proteção às populações mais vulneráveis é eficaz”, comenta. Contudo, o especialista admite que a resistência fiscal em enfrentar essas questões é um desafio. “Embora seja complicado, a inação também tem um custo. Sem investimentos, enfrentaremos mais doenças e maiores gastos no futuro.”
A pressão econômica global intensifica a situação. O pagamento de juros da dívida pelos 75 países mais pobres quadruplicou na última década, restringindo o espaço para investimentos em saúde, educação e proteção social. “Muitos países estão presos em um ciclo que perpetua a má saúde”, conclui Krug.
Além disso, a transformação digital e as mudanças climáticas acentuam ainda mais as desigualdades. “Durante a pandemia, quem não tinha acesso à internet não conseguiu obter informações básicas”, revela. O aquecimento global afeta desproporcionalmente as populações mais vulneráveis, expostas a desastres naturais, como enchentes e calor extremo, enquanto o número de pessoas deslocadas forçosamente triplicou nos últimos 15 anos, em decorrência de conflitos.
O relatório enfatiza ainda o papel das indústrias comerciais. Setores como alimentos ultraprocessados, combustíveis fósseis, tabaco e álcool são responsáveis por cerca de um terço das mortes evitáveis no mundo, somando cerca de 19 milhões por ano, e influenciam fortemente as políticas públicas e o debate científico. Para Krug, o enfrentamento dos determinantes sociais da saúde requer uma ação coordenada que vai além do setor de saúde. “Não são apenas os ministros da Saúde que devem se envolver. É essencial a participação dos ministros de Finanças, Educação e Desenvolvimento Social. Coordenar essas ações é um grande desafio”, argumenta. Mesmo assim, ele vê alguns avanços. “Ignorar essa complexidade é perder uma grande oportunidade para melhorar a saúde pública”, conclui.
