Agronegócio em Busca de Alternativas
BRASÍLIA – O agronegócio se mostra cauteloso em relação à possível candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Apesar de Flávio aparecer como candidato consolidado nas recentes pesquisas eleitorais, o setor ainda anseia por um nome mais moderado, ligado à centro-direita. Essa percepção é unânime entre parlamentares e lideranças do agronegócio, abrangendo desde os produtores rurais até a agroindústria e grandes exportadores.
As reservas do setor em relação à candidatura de Flávio são diversas. Desde a dúvida sobre sua capacidade de enfrentar o atual presidente Lula até questionamentos sobre a verdadeira “moderação” que Flávio reivindica. Um parlamentar que atua no agronegócio, e que preferiu não ser identificado, manifestou que a preocupação vertebral do setor é com uma reeleição do PT, levando à expectativa por uma candidatura que una a direita.
Um grupo dentro do setor acredita que as recentes pesquisas demonstram que existe um espaço viável para uma candidatura direita unificada. O parlamentar ainda mencionou que Flávio tem conseguido atrair a atenção do mercado financeiro e está solidificando sua base no bolsonarismo, embora ainda não alcance o potencial que um candidato de centro-direita poderia ter.
Incertezas e Temores no Setor
Interlocutores do agronegócio expressam incertezas quanto ao pragmatismo que o senador pode adotar em suas relações bilaterais e na política comercial. Outro ponto de preocupação é a possível interrupção de políticas públicas que foram bem recebidas durante o governo Lula, como incentivos à indústria de biocombustíveis e a abertura de mercados para produtos agropecuários brasileiros. Pelo menos dois nomes respeitados do setor que atuaram no governo Bolsonaro com experiência em articulações no Congresso se recusaram a participar da elaboração do programa de governo de Flávio, conforme relatos obtidos pela reportagem.
Entre os conselheiros de Flávio, figuras como o ex-ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, e as frequentes menções ao seu irmão, Eduardo Bolsonaro, como possível ministro das Relações Exteriores, afastam ainda mais o setor agropecuário. Um representante do setor de biocombustíveis comentou que Sachsida é conhecido por sua resistência a combustíveis renováveis, e classificou seu período à frente da pasta como um “pesadelo” para a indústria, lembrando o congelamento da mistura obrigatória de biocombustíveis aos combustíveis fósseis durante a gestão do ex-presidente Bolsonaro.
Eduardo, que é cogitado para uma eventual candidatura ao ministério das Relações Exteriores, também é visto com receio por sua atuação na imposição de tarifas por Donald Trump ao Brasil e o desgaste nas relações entre Brasil e China, principal importador de produtos agropecuários, durante a gestão do ex-presidente. Um exportador, que conversou com a reportagem, ressaltou que o período mais tenso nas relações Brasil-China ocorreu sob o governo Bolsonaro.
Divisão de Apoio no Setor
No campo, no entanto, alguns produtores demonstram uma maior disposição em apoiar Flávio, destacando sua ligação com o legado do pai e sua postura em relação a pautas de costumes e segurança pública. Um presidente de uma entidade de classe afirmou que o apoio do setor será incondicional ao nome endossado por Bolsonaro.
Entre os potenciais candidatos que poderiam unificar a direita e conquistar um suporte significativo do agronegócio, destacam-se o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o governador do Paraná, Ratinho Junior, que é pré-candidato pelo PSD. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que também é pré-candidato pelo PSD, é bem visto no setor, principalmente em razão da forte aprovação de sua gestão. No entanto, sua popularidade em nível nacional é considerada baixa.
Os representantes do agronegócio desenham dois cenários para as eleições deste ano. Se a candidatura de Flávio for confirmada, é esperado que o segmento produtivo se una à sua campanha, enquanto empresários do setor agroindustrial e exportadores podem ainda apoiar de forma tímida a reeleição de Lula, repetindo a divisão observada em 2022. Um parlamentar experiente afirmou que o agronegócio mais dinâmico tende a seguir com Lula, enquanto os segmentos mais tradicionais e radicais devem se alinhar a Flávio.
Por outro lado, se surgir uma candidatura da terceira via, com nomes como Tarcísio e Ratinho, a expectativa é de migração quase total do setor. Um executivo do setor exportador afirmou que, caso uma campanha unificada de centro seja viabilizada, o agronegócio empresarial, orientado por negócios e com uma visão mais pragmática e menos ideológica, se comprometerá a apoiar essa candidatura em detrimento da reeleição de Lula.
Relações com o Governo Lula
Embora o governo Lula tenha buscado uma reaproximação com o agronegócio, anunciando recordes em investimentos no setor, questões como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), propostas de aumento de impostos ligados à atividade agropecuária e a demarcação de terras indígenas continuam a afastar o setor de uma possível reeleição do atual presidente.
A equipe do senador Flávio Bolsonaro não respondeu até o fechamento desta matéria, mas o espaço permanece aberto.
O governador paulista é visto como o “favorito” entre os produtores. Lideranças do agronegócio acreditam que Tarcísio é o único capaz de assegurar uma adesão ampla do setor, abrangendo desde produtores a exportadores e a indústria.
Figuras influentes da bancada agropecuária já sinalizaram ao governador paulista suas considerações sobre uma possível candidatura, mesmo que as “chances sejam remotas”. Nos bastidores, a percepção é de que o cenário permanece fluido, mas fortemente condicionado à vontade de Bolsonaro, que continua sendo um fiador e, ao mesmo tempo, um possível veto para as candidaturas em seu campo político. Interlocutores ouvidos pelo Estadão/Broadcast demonstram que ainda há uma expectativa de que uma eventual prisão domiciliar de Bolsonaro “possa alterar o cenário”.
Aliados da senadora afirmam que o único nome que ela aceitaria como vice seria Tarcísio. Eles também relembram uma desavença com Valdemar, que a teria “desconvidado” para a vice-presidência na candidatura de Jair Bolsonaro em 2022.
