Um Marco na Arte Afro-Brasileira
O Museu de Cultura Afro-Brasileira (Muncab) acaba de abrir uma exposição que marca a repatriação de uma coleção de arte afro-brasileira, considerada a maior da história do Brasil. Com mais de 30 anos de pesquisa e trabalho, as historiadoras de arte americanas, Bárbara Cervenka e Marion Jackson, viajaram pelo Nordeste para adquirir e catalogar obras de artistas locais. Agora, elas doam essa valiosa coleção ao museu, composta por pinturas, esculturas, fotografias e muito mais, que retratam o talento de artistas negros de várias gerações, como J. Cunha, Babalu, Goya Lopes e Raimundo Bida.
A repatriação dessas obras não apenas representa um presente significativo para o Muncab, mas também coincide com um momento crucial em que a história da arte está sendo reavaliada, especialmente no que diz respeito à categorização das artes afro-brasileiras. A direção do museu, liderada por Cintia Maria e Jamile Coelho, prioriza a preservação e a difusão da rica cultura afro-brasileira em todas as suas expressões.
Desafiando Conceitos Tradicionais
Em um cenário onde se discute cada vez mais o papel dos museus na sociedade e como as artes afro-brasileiras dialogam com a arte contemporânea, a nova coleção do Muncab prometeu diversificar as narrativas artísticas. Ao fortalecer o acervo do museu, a coleção contribui para novas perspectivas sobre autoria, circulação e memória na arte brasileira. Essa abordagem busca resgatar histórias e artistas que muitas vezes foram marginalizados ao longo dos anos.
Jamile Coelho, diretora artística do museu, destaca: “Essas quase 700 obras são um testemunho do que estava sendo produzido no Pelourinho e em outras regiões do Nordeste. Muitos artistas produzem de maneira orgânica, mas são rotulados como arte popular ou naïf. Essa visão precisa ser revisada, pois há uma riqueza de produção que merece ser reconhecida”.
Exposição ‘Inclassificáveis’
A exposição intitulada ‘Inclassificáveis’, que será aberta no próximo mês, apresentará cerca de 100 obras selecionadas da nova coleção, que passou por um cuidadoso processo de conservação e restauração. O evento promete ser uma oportunidade de apreciação e reflexão sobre a diversidade da arte afro-brasileira.
Jamile exemplifica algumas das obras: “Temos esculturas de Cachoeira, lideradas pelo artista Louco, e uma rica produção de Gil Abelha, que reflete o cotidiano do Pelourinho na década de 90. Além disso, J. Cunha, um dos artistas mais reconhecidos da atualidade, terá suas obras iniciais expostas, revelando conceitos que ainda são pertinentes nos debates contemporâneos”.
Um Legado para as Futuras Gerações
O Muncab não apenas busca celebrar essas obras, mas também se compromete a desenvolver um programa de exposições e iniciativas educativas ao longo do ano. Ao colocar a cultura afro-brasileira em destaque, o museu espera que a repatriação das obras seja um divisor de águas para o campo das artes visuais no Brasil.
Esse movimento vai além da simples devolução de obras; ele desafia as narrativas históricas que muitas vezes excluíram artistas negros do cenário institucional. Jamile detalha: “Preferimos usar o termo ‘rematriar’, inspirado na poética do professor Ayrson Heráclito, pois enfatiza a ancestralidade e o papel das mulheres nesse processo”. Essa nova abordagem promove uma reavaliação do passado, ao mesmo tempo em que busca construir um futuro mais inclusivo e representativo para a arte brasileira.
