Inadimplência Agrava Crise no Agronegócio
A crise de inadimplência no agronegócio brasileiro, acentuada por uma combinação de crédito restrito, elevação das taxas de juros e custos de produção, tem gerado um efeito cascata que afeta tanto os produtores rurais quanto as empresas que sustentam o setor. O fenômeno denominado ‘efeito dominó’ se manifesta quando a falta de pagamento por parte de um produtor impacta diretamente revendas, fornecedores e prestadores de serviços. Desde o início de 2024, esse cenário tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento dos pedidos de recuperação judicial entre as empresas do setor.
Recentemente, a Justiça de Mato Grosso acatou o pedido de recuperação judicial do Grupo Forte Agro, estabelecido em Rondonópolis. A decisão foi fundamentada no reconhecimento de que a inadimplência, especialmente de clientes produtores rurais — muitos deles também em recuperação —, foi um dos principais fatores para a crise financeira enfrentada pelo grupo.
Decisão Judicial Reconhece Fatores Externos
A sentença, proferida pela 4ª Vara Cível de Rondonópolis sob a supervisão do juiz Renan Pereira do Nascimento, ressaltou que a situação do Grupo Forte Agro se agravou por condições econômicas externas. A alta inadimplência no setor agropecuário teve um impacto significativo, como enfatizado pelo magistrado, que destacou o papel das dificuldades financeiras no campo que afetam diretamente as empresas de fornecimento e comercialização, resultando em interrupções no fluxo de caixa e travamento da cadeia produtiva.
Passivo Estrutural e Empresas Incluídas
A recuperação judicial do Grupo Forte Agro busca organizar um passivo estimado em R$ 260 milhões e inclui, além da própria Forte Agro Ltda., a Pró Campo Comércio de Máquinas e Equipamentos Ltda. e os produtores rurais Luciano Aldacyr Perozzo e Rodrigo Nogueira Lima. O juiz reconheceu a existência de um grupo econômico interligado, atuando de forma conjunta em atividades cruciais do agronegócio, como o comércio de máquinas agrícolas, a venda de insumos, a produção de grãos e a pecuária.
Essa estrutura integrada permite atender diversas demandas dos produtores rurais. Contudo, a interdependência entre os negócios pode acentuar a crise quando o sistema de crédito se torna mais rigoroso, elevando a inadimplência e, consequentemente, a pressão financeira.
Impacto da Inadimplência nos Fluxos Financeiros
Um dos aspectos mais alarmantes do processo judicial é o valor significativo que não entrou no caixa da empresa. O Grupo Forte Agro acumula créditos não recebidos que giram em torno de R$ 50 milhões, muitos provenientes de clientes que também estão enfrentando dificuldades financeiras, comprometendo profundamente o fluxo de caixa da empresa. A decisão judicial deixa claro que a inadimplência dos produtores causou um represamento financeiro que afeta diretamente a operação do grupo.
Desafios Econômicos e Contribuição do Ambiente Externo
Além dos problemas de inadimplência, o juiz também apontou que a situação econômica desafiadora contribuiu para a crise. Entre os fatores que agravam o quadro estão a retração do crédito rural, o aumento das taxas de juros e o encarecimento das operações financeiras, além da instabilidade que permeia o mercado do agronegócio.
Entretanto, é fundamental ressaltar que a decisão judicial não apontou a inviabilidade operacional do grupo, sugerindo que a crise é fruto de um complexo de fatores externos.
Viabilidade Econômica Confirmada por Perícia
Um dos elementos cruciais para o deferimento da recuperação judicial foi a avaliação realizada por um perito judicial, que confirmou que o Grupo Forte Agro e os produtores envolvidos continuam em atividade e são economicamente viáveis. A análise minuciosa, que incluiu uma avaliação documental e uma diligência no local, afastou quaisquer indícios de que a empresa estivesse inativa ou prestes a falir.
Consolidação Substancial dos Devedores e Ações Judiciais
Com base nas conclusões do laudo pericial e na estrutura interligada do grupo, a Justiça determinou a consolidação substancial dos devedores. Essa medida considera a intensa interligação entre os envolvidos, permitindo que o processo seja conduzido de maneira coletiva, refletindo a realidade econômica do grupo e garantindo um tratamento justo aos credores.
Além disso, foi determinada a suspensão de ações e execuções contra o grupo por um período de 180 dias, conhecido como ‘stay period’, que visa preservar a empresa e possibilitar uma reestruturação financeira sem a pressão de cobranças imediatas.
Próximos Passos para a Recuperação Judicial
Com o processo de recuperação judicial acatado, o Grupo Forte Agro terá 60 dias para apresentar um plano detalhado ao Judiciário e aos credores. Este plano definirá as condições de pagamento, renegociação de dívidas e a reorganização interna necessária para manter as operações. O sucesso na recuperação do grupo depende da aceitação dessas condições pelos credores e da capacidade de execução do plano proposto.
