O Cenário Atual do Conflito
Na última terça-feira, 7 de abril, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu ao anunciar um cessar-fogo de duas semanas em relação ao Irã, interrompendo sua retórica alarmante sobre uma possível catástrofe na região. A condição para esse acordo foi a ‘passagem segura’ de navios no estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.
Apesar dessa pausa aparente, a incerteza permanece, especialmente para o agronegócio brasileiro. O foco da guerra não está apenas no poder militar, mas sim na cadeia produtiva de fertilizantes, com destaque para a ureia, um insumo fundamental para a agricultura em larga escala.
O Brasil, que utiliza a agricultura como uma das bases de sua economia, enfrenta um desafio significativo, já que depende de quase 90% dos fertilizantes importados. Segundo Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert (Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes), o país possui 30% do PIB sustentado pela agricultura, mas se vê refém de fornecedores externos.
Protestos e Consequências no Setor Agrícola
No mesmo dia do anúncio de Trump, entidades como a Associação dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar de Pernambuco (AFCP) e o Sindicato dos Cultivadores de Cana do Estado de Pernambuco (Sindicape) se manifestaram em Recife, solicitando auxílio do governo para garantir o acesso a fertilizantes.
O impacto dessa situação não se restringe apenas aos produtores de cana. Como o milho e a soja estão na base da ração animal, o aumento dos custos de fertilizantes pode desencadear uma elevação nos preços de produtos como frango, ovos e carne bovina nos supermercados brasileiros ao longo do segundo semestre.
Dados recentes do boletim Focus, elaborado pelo Banco Central, indicam um pessimismo crescente em relação à inflação, com a expectativa de alta de 4,6% nos preços dos alimentos até o fim do ano, superando os 1,4% previstos para 2025.
Dependência e Vulnerabilidade do Brasil
Embora o Brasil seja um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, também se destaca como o maior importador global de fertilizantes. Além de depender de insumos, o país adquire cerca de 75% dos defensivos agrícolas de fora, substâncias essenciais para proteger as plantações.
A Rússia, historicamente, é a maior fornecedora de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), fundamentais para a fertilização do solo. Mesmo diante das sanções e da instabilidade no Irã, a Rússia continua a fornecer aproximadamente 25% dos fertilizantes utilizados pelo Brasil, redirecionando suas exportações devido à crise no conflito com a Ucrânia.
Em contrapartida, o Irã se torna um parceiro estratégico no fornecimento de ureia, insumo vital para o crescimento das lavouras. Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes iranianos, correspondendo a 80% do total das importações provenientes do Oriente Médio.
O Impacto da Guerra e Alternativas
A relação comercial com o Irã, que não é o maior fornecedor de fertilizantes, mas sim um dos mais importantes, tem crescido nos últimos anos. Em 2022, o Brasil exportou quase US$ 3 bilhões para o Irã, principalmente em cereais como milho e soja, viabilizada por um sistema de barter.
Esse sistema de troca permite que os produtores brasileiros paguem pelos insumos com suas colheitas futuras, facilitando o fluxo logístico entre os dois países. Contudo, a instabilidade no estreito de Ormuz e os ataques à infraestrutura petroquímica iraniana, como o ocorrido em Mahshahr no último sábado, tornam essa relação ainda mais vulnerável.
Caso a oferta de ureia seja interrompida, a situação para os agricultores brasileiros se tornará crítica. Os custos de produção já estão altos e, além disso, a reforma tributária recente aumentou impostos que incidem sobre fertilizantes e sementes, complicando ainda mais a situação.
Medidas para Mitigar os Danos
Para enfrentar essas dificuldades, o Ministério da Agricultura estabeleceu um acordo estratégico com a Turquia, possibilitando o trânsito e armazenamento temporário de cargas brasileiras, o que pode aliviar as restrições em Ormuz. Além disso, a Petrobras reativou unidades de fertilizantes, com a expectativa de que a produção interna atenda até 35% da demanda nos próximos anos.
Entretanto, especialistas como Bernardo Silva alertam que o Brasil precisa de uma mudança de postura a longo prazo, abordando a dependência externa de forma mais efetiva. O Plano Nacional de Fertilizantes, que visa reduzir essa dependência para 50% até 2050, é um passo positivo, mas ainda requer ação política e comprometimento para ser efetivado.
A atual situação é um reflexo de escolhas políticas passadas que levaram à perda de competitividade da indústria nacional. Se o Brasil não agir rapidamente, a dependência por fertilizantes pode colocar em risco não apenas a produção agrícola, mas também a segurança alimentar do país.
