Como a guerra no Irã está afetando o agronegócio no Brasil
O produtor rural Edmilson Roberto Rickli, de Prudentópolis, no centro-sul do Paraná, decidiu suspender a compra de um trator avaliado em R$ 2 milhões devido aos impactos da guerra no Irã. Com a negociação quase fechada, a insegurança econômica, provocada pela alta nos preços do diesel e dos insumos agrícolas, levou Rickli a reconsiderar seus planos. Ele explica que a rentabilidade do agronegócio já está comprometida e o clima de incerteza não favorece novos investimentos.
A situação se agrava desde que o Irã fechou o Estreito de Ormuz, após ataques militares dos Estados Unidos e Israel, o que fez os preços do óleo diesel e fertilizantes dispararem. Importante destacar que o Brasil, apesar de ser um exportador de petróleo cru, depende da importação de diesel e fertilizantes, especialmente da ureia proveniente daquela região.
Consequências da alta nos custos e juros elevados
A taxa de juros no Brasil está em torno de 13% ao ano, o que representa outro desafio para os produtores. Rickli, que também é engenheiro agrônomo e presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis, destaca que apenas os juros no primeiro ano da negociação do trator consumiriam R$ 266,5 mil, o que não é viável no atual cenário. Além disso, ele desistiu de arrendar uma fazenda de 250 hectares para expandir suas lavouras.
O economista e colunista do Estadão, José Roberto Mendonça de Barros, pondera que a prudência demonstrada pelos agricultores é uma resposta natural frente ao aumento repentino dos custos. “A guerra trouxe incertezas e a recuperação do comércio internacional pode demorar, o que afeta diretamente o setor agropecuário”, observa.
Prudentópolis: O reflexo local da crise internacional
Na cidade de Prudentópolis, que possui uma economia fortemente ligada ao agronegócio, o preço do diesel, vital para o funcionamento de tratores e colheitadeiras, subiu de R$ 5,49 para R$ 7,99 por litro desde o início do conflito. Em plena safra de soja, o aumento dos custos operacionais tem levado muitos produtores a reavaliar suas atividades. A colheitadeira, por exemplo, consome de 300 a 400 litros de diesel por dia, resultando em custos que superam R$ 3 mil diários.
A família de Rickli possui grandes áreas de cultivo em vários municípios da região e, além dos tratores, a frota inclui veículos para transporte de grãos e pulverizadores, todos movidos a diesel. Outros produtores, como Augustinho Andreatto, também estão adiando investimentos. Andreatto planejava investir R$ 1 milhão na pecuária leiteira, mas, com a insegurança atual, resolveu suspender todos os seus projetos.
Impactos adicionais e incertezas no mercado
A agropecuária de Prudentópolis é responsável por 40,7% do PIB local, e a cidade, conhecida como “Ucrânia brasileira”, enfrenta desafios adicionais como a instabilidade política do Brasil em ano eleitoral, que pode gerar ainda mais incertezas no setor. O produtor Ezequiel Bobato, que pretendia adquirir maquinário novo, lamenta a situação. “Não sabemos o que vai acontecer, e a insegurança torna a projeção de longo prazo extremamente difícil”, afirma.
Marcelo Alberton, secretário municipal da Agricultura em Manoel Ribas, também se vê obrigado a rever seu planejamento. Ele cogita pular o plantio de trigo, devido ao elevado custo dos insumos, que saltaram de R$ 2.200 por hectare para quase R$ 4 mil. “Com os altos custos e a falta de diesel, é um cenário muito complicado”, diz.
O futuro do agronegócio em meio à crise
A queda nas vendas de máquinas já é notada na indústria, e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) alerta que os agricultores estão priorizando a compra de insumos em vez de renovação de frota. O presidente da Federação da Agricultura do Paraná, Ágide Meneguette, ressalta que o momento requer cautela e planejamento. “Os produtores estão controlando seus investimentos e adaptando os planos frente a um cenário de incertezas”, afirma.
De acordo com Mendonça de Barros, o reflexo no plantio da próxima safra será visível em breve, com muitos agricultores postergando ou até desistindo de novos investimentos. Ele acredita que o Brasil, apesar dos desafios, pode se destacar na crise global devido à sua capacidade de produção de alimentos.
O que se observa é que, conforme a guerra no Irã se intensifica e os efeitos colaterais se propagam, o agronegócio brasileiro enfrenta um período de cautela, aguardando por um cenário mais estável para retomar os investimentos e a confiança no futuro.
