Intervenções Históricas e a Soberania Latino-Americana
A história das intervenções dos Estados Unidos na América Latina é marcada por uma sequência de ações que incluem apoio a golpes, operações encobertas e a deslegitimação seletiva da soberania nacional. Recentemente, o sequestro de Nicolás Maduro se insere nesse padrão histórico, introduzindo uma nova dinâmica tanto no contexto temporal quanto espacial.
No que diz respeito ao tempo, essa ação ocorre em uma era de rápida circulação de informações, onde os atos de intervenção se tornam visíveis e politicamente significativos em tempo real. Já em termos espaciais, pela primeira vez desde o século XIX, os EUA utilizam a força de maneira explícita contra um governo sul-americano. Tradicionalmente, as intervenções na região eram realizadas de forma indireta, por meio de estratégias como a pressão econômica e o apoio a movimentos golpistas.
Esse novo cenário está alinhado com a recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que enfatiza a prevalência americana no Hemisfério Ocidental e justifica o uso da força como um recurso legítimo nessa busca. Trata-se, assim, de uma consolidação de uma política externa com um alcance hemisférico, abrangendo desde a Groenlândia até a América do Sul.
A Criminalização do Inimigo e a Guerra às Drogas
A narrativa em torno da figura de Maduro é marcada por uma vilanização que o redefine como um criminoso comum, apresentando-o como uma ameaça à segurança dos cidadãos americanos. Nesse contexto, a chamada “guerra às drogas” desempenha um papel central: ela transforma conflitos geopolíticos em questões de segurança interna, esvaziando a soberania de nações como a Venezuela e deslocando intervenções do campo da política internacional para uma suposta defesa da ordem doméstica.
Essa forma de enquadramento serve para encobrir objetivos estratégicos mais profundos, especialmente considerando a relevância das reservas de petróleo da Venezuela e a necessidade de garantir a segurança energética para os Estados Unidos. A promessa de libertação e prosperidade para o povo venezuelano é uma narrativa que, historicamente, se revela enganosa ao longo do tempo.
Paralelos com Intervenções Passadas
Um exemplo elucidativo desse padrão é a invasão do Panamá em 1989, que resultou na captura do general Manuel Noriega. A semelhança entre esses eventos é impressionante, especialmente considerando que a prisão de Noriega também ocorreu em 3 de janeiro. Naquela ocasião, os Estados Unidos não reconheceram a soberania panamenha, classificaram Noriega como narcotraficante e o submeteram ao sistema judicial norte-americano. Essa operação foi marcada por um espetáculo público que incluiu humilhações, como o uso de música alta para forçá-lo a se render.
Tanto no caso panamenho quanto no venezuelano, o conflito se insere em uma disputa maior pelo controle de recursos estratégicos, como o petróleo. A nacionalização desses recursos nos anos 1970 deu origem a uma relação historicamente conflituosa entre os Estados Unidos e países da América Latina, com a segurança energética sempre em pauta.
O Deslocamento da Narrativa e a Justificativa para a Intervenção
Uma diferença marcante entre os casos de Panamá e Venezuela reside na lógica que justifica a intervenção. Em 1989, a narrativa de restauração democrática foi central para legitimar a ação dos EUA, enquanto no caso da Venezuela essa justificativa perdeu força. A recusa de Trump em reconhecer Maria Corina Machado como uma liderança política válida, ao mesmo tempo em que se abre a negociações com representantes do governo que ele diz combater, revela que a intervenção nos moldes atuais não se baseia mais na promessa de uma reconstrução democrática.
O mecanismo central de intervenção, no entanto, permanece inalterado: a redução da figura do líder estrangeiro a um criminoso comum. Assim, a soberania da Venezuela é negada, e a intervenção é apresentada como necessária para a restauração da ordem interna nos Estados Unidos, deslocando o foco do conflito da soberania para a justiça doméstica.
A Lógica do ‘America First’ e suas Implicações
Esse discurso reflete a lógica do ‘America First’, onde a política externa é moldada em torno dos interesses internos dos EUA. A divisão entre o que é interno e externo é tratada como uma extensão de seus interesses, transformando o Hemisfério Ocidental em uma zona de gestão de problemas concebidos como domésticos. Essa abordagem permite que Washington contorne normas do direito internacional, uma vez que não há soberania reconhecida a ser respeitada.
O intenso debate sobre a terminologia utilizada para descrever a operação revela um aspecto crucial: enquanto o governo dos EUA evita o uso do termo “guerra”, vozes críticas e autoridades venezuelanas insistentemente caracterizam a ação como tal. Essa recusa se torna uma forma de legitimar a intervenção, negando o reconhecimento de uma soberania que tornaria a ação juridicamente ilegítima.
Mensagens e Consequências Regionais
Ao rotular a operação como “espetacular”, Trump não apenas afirma a força dos Estados Unidos, mas também envia mensagens claras aos seus interlocutores, reafirmando que a dissidência na América Latina terá um custo. Essa dinâmica não se limita ao plano militar; a atuação dos EUA também envolve coerção diplomática, refletindo uma ampla disputa de influência na região, especialmente em face da crescente presença chinesa.
O sequestro de Maduro deve ser visto, portanto, como parte de um padrão histórico que caracteriza as intervenções dos EUA na América Latina, onde não se diferencia mais entre política interna e externa. Essa continuidade revela uma lógica imperial que, embora atualizada, permanece fiel a seus princípios fundamentais de controle e dominação.
