Mecanismos de Adaptação ao Clima no Agronegócio
A produção de alimentos no Brasil sempre foi, de certa forma, um desafio em termos de convivência com incertezas climáticas. Nos últimos anos, a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como secas severas, ondas de calor, geadas fora de época e chuvas concentradas, têm exigido dos produtores decisões cada vez mais rápidas e precisas. Para enfrentar esse panorama de riscos, o agronegócio brasileiro adotou uma série de instrumentos que incluem monitoramento climático, planejamento estatístico, crédito, seguro e manejo agrícola.
No coração desse sistema, encontramos o Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), uma ferramenta oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) que visa prever riscos no calendário agrícola. De acordo com o ministério, “a ferramenta é fundamentada em longas séries históricas de dados climáticos, integradas ao ciclo das culturas e aos tipos de solo, para estimar a probabilidade de perdas devido a adversidades como seca, excesso de chuva e geadas.” Assim, o Zarc não é apenas uma previsão do tempo, mas sim uma avaliação estatística de risco que determina, município a município, as janelas de plantio com menor probabilidade de perdas, servindo como referência para o crédito rural, o Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) e o PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural).
Como o Zarc Comunica Riscos aos Produtores
Atualmente, as orientações do Zarc são encaminhadas aos produtores por meio de diversos canais. Segundo informações do Mapa, as principais ferramentas incluem as portarias do Zarc, publicadas anualmente no Diário Oficial da União, o Painel de Indicação de Riscos do Zarc e o aplicativo Plantio Certo. Essas ferramentas auxiliam na identificação, por safra, município, cultura, ciclo e tipo de solo, dos períodos de plantio que apresentam menor risco climático, de forma prática e acessível, indicando se o momento de plantio está dentro da janela recomendada.
Entretanto, o governo reconhece que ainda existem oportunidades para aprimorar essas ferramentas, buscando torná-las mais claras e acessíveis. Uma das iniciativas em andamento é o projeto Zarc em Níveis de Manejo, que objetiva refinar a análise de risco com base nas práticas adotadas pelos produtores.
Crédito, Seguro e Sustentabilidade no Agronegócio
O risco climático passou a ser encarado não apenas como um fator conjuntural, mas como um elemento essencial da política agrícola. Por exemplo, a concessão de crédito rural está atrelada ao cumprimento das orientações do Zarc, principalmente nas operações de custeio agrícola. Além disso, sistemas produtivos que aumentam a resiliência das lavouras têm sido incentivados por linhas de financiamento específicas.
Entre os programas destacados pelo Mapa estão o Renovagro, Inovagro e Pronamp, que viabilizam investimentos em manejo do solo, adequação do sistema solo–água–planta, agricultura de precisão e plantio direto. No âmbito dos seguros, o PSR tem buscado discutir novos modelos, priorizando o seguro paramétrico e a diminuição da discricionariedade na liberação de recursos. Desde janeiro de 2026, o programa passou a exigir critérios socioambientais, como a regularidade do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a ausência de sobreposição com terras indígenas para acesso à subvenção.
A Dinâmica do Risco Climático no Campo
De acordo com Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), o risco climático é predominantemente ligado a eventos hídricos, com excesso ou falta de chuva representando mais de 70% dos sinistros registrados no seguro agrícola. “Esses dois fatores são os que mais afetam o sistema. Em outros setores, como florestas, pecuária e patrimônio rural, também ocorrem problemas como granizo, vendavais e incêndios, mas o risco hídrico continua sendo o principal motivo de perdas no agronegócio”, declarou ao CNN Agro.
Vulnerabilidades Regionais e Tendências Futuras
Pesquisas realizadas pela Embrapa e pelo Mapa, no contexto do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), apontam vulnerabilidades regionais significativas. O Nordeste se destaca como a região mais suscetível, especialmente para culturas como o milho. Já Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão expostos devido à sua alta concentração em soja. O Rio Grande do Sul enfrenta riscos associados a extremos hídricos, como secas e geadas, enquanto o Sudeste é mais vulnerável a veranicos e altas temperaturas.
O PBMC prevê que, em regiões que dependem fortemente de monoculturas, as perdas econômicas relacionadas às mudanças climáticas podem ultrapassar 5% do PIB regional. Essas alterações climáticas também devem resultar no deslocamento de culturas, com previsões indicando que café, algodão e milho safrinha podem se deslocar para áreas mais ao sul ou regiões de altitudes superiores. Em contrapartida, trigo e aveia devem perder espaço, enquanto a soja pode avançar para novas áreas de cultivo.
Seguros e Recuperação de Solo
Na perspectiva das seguradoras, áreas que passaram por processos de recuperação exigem atenção especial na contratação de seguros, mas podem apresentar um risco reduzido quando bem manejadas. “Uma área degradada, ao ser recuperada e bem cuidada, pode alcançar condições agronômicas mais estáveis, o que diminui o risco para a seguradora”, explicou Toyama. O desafio, segundo ele, reside no período inicial, quando o potencial produtivo ainda não foi plenamente atingido.
Adaptação dos Seguros à Realidade do Campo
No que diz respeito ao seguro agrícola, essa evolução é abordada através do chamado gatilho de indenização. Em áreas recentemente recuperadas, a produtividade esperada é ajustada para um nível mais baixo, refletindo o estágio tecnológico do solo. “Se a média regional de soja é de 50 sacas por hectare, uma área consolidada pode ter um gatilho abaixo de 35 sacas. Já uma área recuperada pode alcançar uma produtividade esperada de 40 sacas, com o gatilho recalculado em torno de 28”, detalhou Toyama.
Essa abordagem busca alinhar o seguro à realidade produtiva inicial da área, sem desencorajar a recuperação do solo ou expor a seguradora a riscos inadequados ao estágio produtivo. Além dos modelos tradicionais, o mercado também está avaliando a implementação de seguros paramétricos, especialmente em regiões onde o principal risco está associado à falta ou ao excesso de chuva. Nesses casos, a indenização é acionada com base em índices climáticos, independentemente da produtividade final da lavoura.
Conviver com a Incertidão Climática
Na prática, o risco climático não pode ser eliminado da agricultura brasileira. O que se observa é uma aprendizagem constante do setor para conviver com essa realidade, utilizando estatísticas, tecnologias, crédito e seguros para minimizar perdas e aumentar a resiliência da produção. Na visão do mercado segurador, áreas que investem na recuperação do solo tendem, ao longo do tempo, a responder de maneira mais eficaz aos extremos climáticos. “À medida que há manejo adequado, aumento de matéria orgânica e proteção do solo, essas áreas conseguem reter mais água e sofrer menos com a escassez hídrica”, finaliza Toyama. “No médio prazo, essas áreas podem se tornar até mais protegidas do que solos expostos a riscos climáticos.”
