Uma tradição que atravessa gerações
Maria Cleide dos Santos Costa, aos 70 anos, aprendeu a arte da renda de bilro ainda criança, aos 7 anos, observando sua mãe na prática do ofício. Filha de pescador e rendeira, ela iniciou a comercialização das peças com apenas 8 anos, dando início a uma trajetória que se tornou a principal fonte de renda para ela e seus seis filhos.
Reconhecida como a primeira mestra rendeira de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, dona Cleide carrega consigo o orgulho da ocupação que preserva um saber ancestral, transmitido entre gerações e consolidado como símbolo da cultura local.
Reconhecimento oficial e importância cultural
No dia 3 de junho, a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult-CE) oficializou o reconhecimento do ofício das rendeiras de bilro como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. Esse marco foi registrado no Livro de Registro dos Saberes do patrimônio imaterial do Ceará, que agora inclui a técnica manual da renda de bilro.
Segundo Emmanuel Bastos, analista cultural da Secult, a Central de Artesanato do Ceará (Ceart) foi a responsável por solicitar o reconhecimento, dando início a um processo de pesquisa e documentação conduzido pela Coordenadoria de Patrimônio Cultural e Memória (Copam). O dossiê apresentado comprova a relevância histórica, social e econômica da renda de bilro para a identidade cultural cearense.
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Laços familiares e impacto econômico
Emmanuel Bastos destaca que a renda de bilro representa uma releitura criativa de técnicas europeias adaptadas pelas comunidades locais, consolidando-se em vínculos familiares, de parentesco e comunitários por meio da transmissão entre gerações. Além de seu valor cultural, o ofício sustenta muitas famílias de artesãs, contribuindo para o enfrentamento das vulnerabilidades sociais de seus territórios.
Dona Cleide exemplifica essa realidade. Considerada Tesouro Vivo do Ceará, ela ensinou a arte às filhas e neta, embora observe com preocupação o desinteresse dos jovens pela prática. Enquanto suas sucessoras seguiram caminhos diferentes, a mestra continua dedicada à técnica que aprendeu na infância, mantendo viva essa tradição.
Educação e preservação da arte
Para reverter o quadro de desinteresse, dona Cleide ministra aulas para adolescentes na Casa de José de Alencar, vinculada à Universidade Federal do Ceará (UFC). Ela relata entusiasmo dos alunos, que terão aulas durante dois meses, enquanto ela aprendeu em menos de um, apenas observando e praticando com os bilros que encontrava pela casa.
A renda de bilro também proporcionou a dona Cleide viagens para diversos destinos, incluindo Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Itália e França. “Tudo o que eu tenho hoje em dia veio da minha renda, da minha profissão”, afirma, ressaltando o valor que a arte lhe trouxe ao longo da vida.
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Fonte: decaruaru.com.br
Processo coletivo para a patrimonialização
O reconhecimento como patrimônio resultou de um trabalho coletivo envolvendo rendeiras, pesquisadores, instituições parceiras e o governo estadual, por meio da Secretaria da Cultura. Germana Mourão, coordenadora da Ceart, destacou o empenho durante todo o processo de patrimonialização, que também contou com a participação do Museu da Imagem e do Som (MIS) na produção de documentários sobre mestras rendeiras consideradas Tesouros Vivos.
Reuniões com as rendeiras permitiram a elaboração de um plano de salvaguarda que orientará ações pelos próximos dez anos, período em que o registro do ofício será revalidado. Entre os temas discutidos estão a saúde das rendeiras, infraestrutura de cooperativas, capacitação técnica para redes sociais, precificação e comercialização, além do apoio a eventos, feiras, seminários e articulação com o turismo.
Perspectivas para o futuro da renda de bilro
Germana Mourão ressalta que o reconhecimento cria condições para o desenvolvimento estruturado de políticas públicas voltadas à preservação e fortalecimento da atividade. Emmanuel Bastos aponta que o Ceará já é um polo de produção têxtil e que o próximo passo é identificar mercados onde a renda de bilro possa ser inserida e quais estratégias usar para ampliar sua presença.
Dona Cleide, por sua vez, celebra o reconhecimento após tantos anos de dedicação. “Agora nós temos valor. Antes éramos esquecidas”, comenta, expressando a expectativa de que o ofício receba maior divulgação, pesquisa e alcance internacional, garantindo direitos às rendeiras e perpetuando essa rica tradição cultural do Ceará.
