Gargalo energético trava expansão industrial no Ceará
O Ceará enfrenta um entrave estrutural em sua matriz energética que limita o avanço da indústria e compromete o desenvolvimento econômico local. Ricardo Pinheiro, diretor de comunicação da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) RN/CE e diretor da RPR Engenharia e Consultoria, destaca a ausência de uma coordenação governamental efetiva para planejar combustíveis, gás natural, biocombustíveis e exploração de petróleo na região.
Enquanto o debate público concentra-se em fontes renováveis como eólica, solar e hidrogênio verde (H2V), as fontes térmicas e combustíveis fundamentais para a indústria de transformação permanecem negligenciadas. Essa falta de equilíbrio mantém o estado dependente de importações energéticas, elevando os custos locais.
Consumo baixo de gás natural e impacto na atração de indústrias
O consumo de gás natural no Ceará é considerado “desprezível” pelo especialista, com cerca de 550 mil m³ por dia para todo o estado. Em comparação, o polo gesseiro de Pernambuco, concentrado em menos de 20 municípios, demanda aproximadamente 500 mil m³ por dia apenas para substituir a lenha por gás natural. Esta baixa demanda cearense resulta em um círculo vicioso: sem indústria forte, não há consumo significativo de gás, e sem infraestrutura adequada para o combustível, não há atração de indústrias que dependem dessa energia térmica.
Além disso, o estado mantém a operação de termelétricas a carvão mineral no Complexo do Pecém, contrariando as diretrizes globais de descarbonização.
Dependência de combustíveis importados e potencial para biocombustíveis
O isolamento geográfico do Ceará repercute diretamente no bolso do consumidor, que depende de etanol importado para compor a gasolina vendida localmente. A chegada da Ferrovia Transnordestina ao Porto do Pecém abre uma oportunidade para desenvolver uma indústria local de etanol a partir do milho, cultivado no próprio estado e com possibilidade de transporte em larga escala via modal ferroviário.
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No biodiesel, a situação é similar: a Usina de Quixadá, unidade da Petrobras no Sertão Central, permanece inativa, e o Ceará não possui unidades ativas para processamento de óleos vegetais. Pinheiro sugere a importação de soja do Matopiba, especialmente do Piauí, via Transnordestina, para processamento em Quixadá, o que geraria benefícios econômicos tanto na fabricação de biodiesel quanto na indústria de ração animal, fortalecendo setores como a pecuária e o abatedouro de Iguatu.
Biometano com produção limitada e necessidade de políticas incentivadoras
Apesar do avanço do biometano em outras regiões, no Ceará o projeto pioneiro da usina GNR Fortaleza, no Aterro Sanitário de Caucaia, já atingiu seu limite físico, produzindo cerca de 100 mil m³ por dia. Para ampliar essa produção a níveis que atendam a demanda de uma termelétrica, seriam necessárias dezenas de cidades do porte de Fortaleza.
Pinheiro defende a criação de um programa estadual para incentivar produtores privados de biometano no campo e na agropecuária, além do cultivo de culturas oleaginosas nativas, como a macaúba, para ampliar a produção de combustíveis renováveis no estado.
Oportunidade na Margem Equatorial e falta de ação governamental
Um dos pontos mais críticos é a ausência de blocos exploratórios ativos para petróleo no Ceará, especialmente na Margem Equatorial. Enquanto estados vizinhos avançam com descobertas promissoras, o Ceará registra presença nula. O leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) em outubro oferecerá oito blocos na bacia marítima cearense, com preço inicial de R$ 38 milhões — valor considerado baixo para petroleiras.
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Pinheiro ressalta a necessidade de o governador negociar diretamente com a Petrobras para garantir a exploração desses blocos, evitando que sejam devolvidos à ANP e esquecidos, o que poderia impulsionar investimentos e a economia local.
Gestão fragmentada e urgência por liderança energética
Para o especialista, o Ceará não avançará enquanto a gestão energética continuar fragmentada e desconectada da realidade do mercado. Ele cobra a criação de um órgão coordenador com liderança dedicada à interlocução com grandes investidores e ao desenvolvimento de políticas para energias térmicas e combustíveis.
Além disso, destaca a importância de revisar o programa de hidrogênio verde, que acumula anos em fase de anúncios sem impacto real na economia do estado. Uma visão sistêmica da matriz energética é fundamental, reconhecendo que fontes renováveis, embora importantes, não suprem sozinhas a demanda industrial por calor e combustíveis líquidos.
Sem essa mudança, o Ceará seguirá importando energia e mantendo sua participação histórica de apenas 2% no PIB nacional, comprometendo seu potencial de crescimento e geração de empregos.
