O Início da Epidemia no Ceará
Antes da dengue se tornar conhecida entre os cearenses, houve um período de incertezas e diagnósticos que mudavam à medida que autoridades de saúde tentavam compreender o que ocorria. Em 1986, o vírus da dengue encontrou um território já infestado pelo mosquito Aedes aegypti, e a resposta precisou ser construída praticamente em tempo real, enquanto a epidemia avançava.
Documentos históricos do Ministério da Saúde, obtidos pela reportagem, indicam que Fortaleza apresentava índices de infestação predial superiores a 30%, e que 20 municípios cearenses estavam na lista das localidades afetadas pelo mosquito.
Como a Dengue Chegou ao Ceará
A pesquisa “Série histórica da dengue e do Aedes aegypti no Ceará”, de Estelita Pereira Lima e colaboradores, aponta que o DENV-1, primeiro dos quatro sorotipos do vírus da dengue, foi introduzido naquele ano. Os primeiros casos surgiram em Aracati e, posteriormente, em Fortaleza, associados a pessoas vindas de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde uma epidemia já ocorria.
As praias de Fortaleza e de outros municípios litorâneos estavam entre os principais destinos turísticos do país, o que facilitou a circulação das pessoas e, consequentemente, a disseminação do vírus.
Para o médico sanitarista José Policarpo de Araújo Barbosa, mestre em saúde pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atuante na época, a mobilidade das pessoas é um fator essencial para entender a propagação da doença, que ainda era pouco compreendida naquele momento. “Era uma coisa tão inusitada. Ninguém conhecia”, recorda o especialista.
A Presença do Aedes aegypti Antes da Dengue
O surgimento da doença no Ceará só foi possível porque o vetor, o Aedes aegypti, já estava presente no estado há décadas, inicialmente associado à transmissão da febre amarela. Após a erradicação do mosquito, o controle passou a ser feito por meio de armadilhas instaladas em pontos estratégicos para monitorar seu retorno.
Em agosto de 1984, Aquiraz foi a primeira localidade a registrar novamente a presença do Aedes aegypti. O mosquito foi encontrado em uma armadilha colocada em um posto fiscal às margens da BR-116, e a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) foi acionada imediatamente.
No mesmo mês, Fortaleza também confirmou a reinfestação do mosquito, com larvas encontradas em imóveis próximos ao Mercado São Sebastião. Posteriormente, outros locais como o Terminal Rodoviário Eng. João Thomé, o Cais do Porto e o Aeroporto também apresentaram focos do vetor.
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Fonte: omanauense.com.br
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Fonte: amapainforma.com.br
A Adaptação do Mosquito e o Avanço da Dengue
O conjunto da mobilidade humana e a presença do Aedes aegypti em mercados, rodoviárias, portos, aeroportos e rodovias criou condições favoráveis para a disseminação da dengue. Quarenta anos depois, José Policarpo Barbosa destaca a capacidade de adaptação do mosquito como um fator crucial para a persistência da doença. “A resiliência do Aedes aegypti é muito grande, ele se adaptou muito bem à proximidade dos humanos, às caixas-d’água com água limpa e às casas”, explica.
O Ministério da Saúde e a Situação de Emergência
Um documento do Ministério da Saúde, datado de 16 de julho de 1986, revela a preocupação do governo federal diante do avanço do Aedes aegypti e da dengue no país. A situação no Ceará e em Alagoas foi classificada como “grave”, com índices de infestação predial nas capitais Fortaleza e Maceió acima de 30%.
Além de Fortaleza, municípios do litoral, da Região Metropolitana, do Vale do Jaguaribe e do Cariri já apresentavam a presença do mosquito simultaneamente, o que ampliava o risco de disseminação.
O Desafio do Diagnóstico
O período de incerteza também afetou o diagnóstico dos primeiros casos. Em maio de 1986, Ilza Santos do Nascimento, moradora próxima ao Rio Ceará, foi inicialmente tratada como o primeiro caso confirmado de dengue no estado. Ela havia retornado ao Ceará depois de morar sete anos no Rio de Janeiro, onde a doença era mais conhecida.
Os sintomas eram compatíveis com a dengue, e uma amostra foi enviada ao Instituto Evandro Chagas, em Belém, referência para exames na época. O resultado inicial indicou confirmação, mas o caso foi depois classificado como “suspeito” e, finalmente, descartado pelas autoridades de saúde.
Em reportagem publicada na época, a Sucam apontava como principais dificuldades para o controle do mosquito o acúmulo de lixo, a falta de conscientização da população e a escassez de recursos humanos.
José Policarpo Barbosa destaca que o diagnóstico era baseado principalmente no quadro clínico, já que o exame laboratorial tinha função epidemiológica e não era um requisito para iniciar o tratamento ou as medidas de controle. “Se você for esperar para tomar as providências depois que o exame der positivo, a pessoa já morreu”, reforça.
O Papel do Hospital São José de Doenças Infecciosas
O Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), da rede estadual, foi fundamental na resposta à epidemia. Tornou-se referência para atendimento e formação de profissionais durante aquele período.
Segundo Barbosa, o hospital estabeleceu protocolos para todos os hospitais do estado, treinou médicos e formou gerações de infectologistas, contribuindo para a estruturação da resposta à dengue no Ceará.
A Epidemia de 1987 e o Crescimento dos Casos
Enquanto em 1986 a dengue ainda era descoberta, em 1987 a epidemia mostrou sua verdadeira dimensão. Documentos federais indicam que as operações de controle incluíam borrifação de inseticidas nos domicílios das áreas infestadas, vigilância para impedir a reinfestação e monitoramento de passageiros e trabalhadores em portos e aeroportos.
O ano seguinte registrou um salto significativo: os casos passaram de 4.419 em 1986 para 22.518 em 1987, um aumento de mais de cinco vezes. A incidência subiu de 75,6 para 378,9 casos por 100 mil habitantes.
No entanto, estudos indicam que muitos casos não são diagnosticados ou registrados, o que sugere que os números oficiais refletem apenas parte da epidemia real vivida pela população.
A Dengue como Doença Endêmica no Ceará
José Policarpo Barbosa observa que a dengue deixou de ser apenas uma epidemia para se tornar uma doença endêmica no Brasil, circulando quase que continuamente na sociedade.
O sorotipo DENV-1 permaneceu ativo no Ceará entre 1986 e 1993, sendo substituído pelo DENV-2 em 1994. Desde então, o estado enfrentou sete epidemias, com períodos intercalados de baixa transmissão e novos surtos.
Na próxima reportagem do especial “Dengue – 40 anos”, será detalhado como as características e comportamentos do Aedes aegypti dificultam sua erradicação, mantendo o mosquito como uma ameaça constante à saúde pública.
