Operação Coaptação expõe esquema de desvio na saúde pública cearense
Mais de 80 empresas fantasmas foram usadas para desviar recursos da saúde pública no Ceará, segundo a Polícia Federal (PF). A organização criminosa atuava dentro da Cooperativa de Trabalho de Atendimento Pré e Hospitalar (Coaph) e mantinha um verdadeiro “bunker” para administrar grandes quantias em dinheiro vivo. A informação consta na decisão da Justiça Federal referente à Operação Coaptação, deflagrada recentemente.
Na investigação, apenas quatro dessas empresas de fachada foram responsáveis pelo desvio de aproximadamente R$ 20 milhões em pouco mais de 100 dias. Entre elas, figuram Blue Stel Reformas e Manutenção Ltda., New Consultoria e Assessoria Ltda., L&R Assessoria e Consultoria Ltda. e Serf Serviços de Locação de Veículos em Geral Ltda.
Impacto financeiro e prisões relacionadas ao esquema
Os investigadores estimam que a rede completa de empresas fictícias pode ter desviado centenas de milhões de reais dos recursos públicos destinados à saúde do estado ao longo dos últimos anos. A PF prendeu cinco pessoas ligadas à Coaph na última quinta-feira (8). O esquema envolvia a criação de contratos com prefeituras baseados em documentos falsos, permitindo o desvio de verbas federais.
Como cooperativa, a Coaph não poderia gerar lucro. No entanto, as empresas de fachada eram usadas para formalizar contratos fraudulentos e emitir notas fiscais por serviços jamais prestados. Essa prática permitia o desvio de dinheiro público que deveria ser investido na saúde da população.
Leia também: Ciro e Elmano debatem saúde, educação e economia no Ceará com embates diretos
Leia também: Lula critica gestão Bolsonaro e reforça avanços na saúde pública durante visita ao Ceará
Funcionamento do “bunker” e movimentação de dinheiro vivo
Para ocultar a origem dos recursos desviados e realizar pagamentos ilegais a agentes públicos e políticos, o grupo mantinha uma movimentação intensa de dinheiro em espécie. A sede da Coaph abrigava uma área dedicada exclusivamente à gestão desse dinheiro, equipada até com máquinas para contar cédulas.
Fernando Antônio Rosa Cavalcante, funcionário da cooperativa, era o responsável por administrar esse setor e receber os valores provenientes de saques. A Polícia Federal flagrou o contador e operador financeiro César Agamenon Carvalho Barbosa transportando R$ 345 mil em espécie, sacados da conta de uma empresa fictícia, rumo à sede da cooperativa. No total, foram apreendidos R$ 437,9 mil com ele.
César Agamenon afirmou que os valores seriam usados para pagar médicos cooperados em dinheiro vivo, informação reforçada por outros saques realizados na véspera, totalizando R$ 400 mil. A investigação também revelou que a New Consultoria, uma das empresas fictícias, tinha como sócio um “laranja” preso no sistema penitenciário do Ceará.
Leia também: Celebração dos 168 anos de Ceará-Mirim reúne mais de 30 mil pessoas em evento cultural marcante
Leia também: Deputada do Ceará é Acusada de Articular Fraudes no INSS, Revela PF
Contabilidade paralela e “fábrica” de CNPJs
O aprofundamento das investigações contou com a análise de celulares e notebooks apreendidos, o que revelou uma contabilidade paralela e indicativos de repasses ilícitos a agentes públicos. A organização funcionava como uma verdadeira “fábrica” de CNPJs, criando empresas apenas para emitir notas fiscais fraudulentas e depois descartá-las.
Levantamentos indicam que a gestão da Coaph chegou a solicitar a baixa formal de mais de 70 dessas empresas usadas no esquema. Dados da Controladoria-Geral da União (CGU) apontam que a cooperativa recebeu cerca de R$ 1,8 bilhão em contratos com o Governo do Ceará e prefeituras, incluindo Fortaleza, sendo que aproximadamente R$ 250 milhões vieram de verbas federais destinadas à saúde.
O desvio desses recursos compromete o atendimento público e evidencia a necessidade de fiscalização rigorosa para garantir que o dinheiro chegue efetivamente para o cuidado à população.
