Investimento bilionário em data center no Ceará marca expansão chinesa no Brasil
Em uma região remota do Ceará, um ambicioso projeto tecnológico está ganhando forma. Trabalhadores locais estão construindo um data center para a ByteDance, a empresa chinesa dona do TikTok. Este será o maior complexo de centros de dados da companhia fora da China, com um investimento estimado em R$ 200 bilhões (US$ 39 bilhões). Segundo o gerente da obra, Wellysson Costa, a transformação da área foi radical: “Aqui era tudo mato e vegetação rasteira”, conta ele ao passar pelos equipamentos e fundações em concreto robustas.
A Omnia, empresa brasileira especializada na construção de data centers, é responsável pela obra. A escolha do Ceará para sediar o empreendimento veio após a apresentação de uma proposta que explorou a zona de livre comércio local, o que permite evitar as altas tarifas brasileiras sobre importação de equipamentos de informática. Em menos de seis meses, a vegetação deu lugar a uma estrutura imponente de aço e concreto. O complexo contará com 20 salões de dados, que futuramente abrigarão servidores e equipamentos de rede.
Capacidade e vantagens estratégicas do Brasil para tecnologia chinesa
O data center terá uma capacidade computacional inicial de 200 megawatts, com previsão de expansão para 1 gigawatt. A expectativa é que o primeiro salão entre em operação até o final de 2027. O Brasil, com sua vasta matriz energética renovável — cerca de 90% da eletricidade vem de hidrelétricas, usinas solares e parques eólicos —, se mostra uma plataforma natural para empresas chinesas de inteligência artificial que buscam crescer fora do país asiático, superando concorrentes americanos.
Além do fornecimento energético, o país também é um ponto estratégico de telecomunicações no Hemisfério Sul, graças a cabos submarinos que conectam o Brasil à América do Norte, Europa e África. Hoje, o Brasil possui mais de 100 centros de dados, número ainda pequeno comparado aos quase 1.700 dos Estados Unidos, líder mundial na área.
Expansão chinesa e desafios para o setor de data centers no Brasil
Outras gigantes chinesas seguem o caminho da ByteDance. A Alibaba, por exemplo, planeja alugar espaço em um complexo em São Paulo voltado para inteligência artificial. No mercado local, empresas como Ascenty, Elea Data Centers e Scala Data Centers — algumas com apoio de investidores americanos — também investem pesado, disputando contratos com hyperscalers chinesas e americanas. A Ascenty sozinha investe US$ 1,2 bilhão em operações na América Latina.
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Enquanto isso, a China planeja aplicar 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) em uma rede nacional de polos de computação, reforçando seu domínio tecnológico interno. No Brasil, a construção do data center da ByteDance representa um movimento estratégico e um desafio à influência americana na região.
Soberania digital e a importância da infraestrutura nacional
Atualmente, cerca de dois terços dos dados brasileiros são processados no exterior, o que torna a expansão da infraestrutura local uma prioridade para o governo Lula. Luis Fernandes, secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, destaca que essa dependência representa uma vulnerabilidade nacional em termos de soberania digital.
Porém, a nova instalação da ByteDance não pretende reduzir essa dependência, já que atenderá usuários fora dos EUA e Europa. Paralelamente, o Brasil enfrenta desafios para avançar no setor, como a paralisação de um programa de incentivos fiscais e o adiamento de um leilão para sistemas de armazenamento por baterias, essenciais para a estabilidade energética do setor.
Contexto geopolítico e oportunidades para o Brasil
As tensões comerciais entre Estados Unidos e Brasil, com tarifas impostas e retiradas recentemente, dificultam a entrada de empresas americanas no mercado local de data centers. Por outro lado, as companhias chinesas demonstram maior disposição para assumir riscos, o que tem impulsionado seus investimentos. Eduardo Menossi, fundador do Grupo EBM, aponta que eventos como a guerra no Irã, que afetou centros de dados da Amazon, tornam o Brasil uma alternativa estratégica para empresas americanas que buscam segurança.
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Fonte: diariofloripa.com.br
Infraestrutura digital e impacto local em Fortaleza e comunidades indígenas
Fortaleza, capital do Ceará, concentra grande parte da infraestrutura digital do país, com 16 cabos submarinos que suportam cerca de 90% do tráfego internacional de internet do Brasil. Essa condição atrai startups e empresas de tecnologia, que veem no local uma oportunidade para testar soluções avançadas.
Entretanto, nem todos celebram a chegada dos centros de dados. Comunidades indígenas Anacé manifestaram-se contra o projeto da ByteDance, alegando impactos negativos históricos e atuais, como o consumo elevado de energia enquanto sofrem com interrupções no fornecimento. A Omnia, por sua vez, tem investido em capacitação profissional local para gerar empregos diretos na construção.
Futuro dos data centers no Ceará e no Brasil
O secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, afirma que o empreendimento da ByteDance é apenas o início da chegada de outras grandes empresas ao estado. Já houve conversas com pelo menos seis hyperscalers interessadas em investir na região, o que pode consolidar o Ceará como um polo estratégico de tecnologia e inovação no Brasil.
Assim, o investimento chinês não só reforça a presença da tecnologia na economia local, como também introduz desafios e oportunidades para o desenvolvimento digital sustentável e soberano do país.
