O trabalho de preservar a história do futebol cearense
Na Biblioteca Pública, o setor de periódicos é palco de uma rotina intensa para quem se dedica a recontar a trajetória dos clubes Ceará e Fortaleza. Gabriel Arcelino, gerente do Centro Cultural do Ceará, explica que a pesquisa pode ser direcionada para demandas específicas, como a história de um jogador ou jogos marcantes, ou ainda servir para compor um acervo completo de notícias de determinado ano, guardado para futuras consultas.
O Centro Cultural recebe muitos ex-jogadores, e a memória deles é considerada fundamental para registrar a história viva do futebol local. “Eu deixo que eles falem o depoimento deles, eles vivenciaram a história. Perguntam quantos jogos fizeram pelo Ceará… Essa é uma missão do nosso Centro Cultural”, reforça Gabriel.
Dedicação e cuidado na pesquisa histórica
Pedro Netto, autor de “O Fortaleza em Campeonatos Brasileiros”, divide seu tempo entre a docência e as pesquisas na Biblioteca. Em dias de investigação, ele chega cedo e permanece até o fim da tarde, utilizando lupas, luvas e muita atenção para não danificar jornais antigos. O silêncio é obrigatório, assim como a proibição de alimentos no local de pesquisa.
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“O que move a gente é o amor ao clube, tentar entender a conexão da história de um clube de futebol com a sociedade. Entram várias questões: racismo, desigualdades da época, economia da época. O futebol acaba movendo a gente com isso”, afirma Pedro.
O trabalho é minucioso: folha por folha, dia após dia, ele examina não só notícias esportivas, mas também registros como casamentos e falecimentos para contextualizar melhor o período pesquisado. “Existe um catálogo com os anos, por exemplo, 1930. A gente pede os jornais e vamos pesquisando, dependendo do jornal, pode ser de janeiro a dezembro, mas pode não ter os meses, e a gente vai atrás”, detalha.
Descobertas que revelam histórias esquecidas
Entre as histórias reveladas está a de Fred Alemão, atleta do Fortaleza em 1938, cuja imagem da época foi encontrada recentemente. “Até 2025, nós não sabíamos a fisionomia dele daquele período. Encontramos no ano passado, no ‘O Unitário’, a foto dele ao lado do médico, com o braço quebrado, aparentando cerca de 19 ou 20 anos. Ele era alemão, judeu, veio ao Brasil fugindo do Nazismo”, conta Pedro.
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Fonte: soudesaoluis.com.br
O futebol como espelho da sociedade cearense
O professor e historiador Evaldo Lima reforça que a evolução do futebol no Ceará está diretamente ligada à história da sociedade local. Ele lembra que o primeiro jogo registrado aconteceu em 1904, no Passeio Público, no centro de Fortaleza, e que o esporte foi se deslocando para praças e estádios, como o Presidente Vargas e o Castelão.
“Compreender o futebol cearense é desvendar a trajetória da sociedade cearense. Se pensarmos que a primeira partida foi no Passeio Público e todo o significado desse espaço, além da transição para outros locais, como o Campo do Pio e o estádio Presidente Vargas, onde Pelé fez seu milésimo jogo, fica claro o quanto o futebol está entrelaçado com a história da cidade”, afirma Evaldo.
Historiadores: guardiões do tempo e da memória esportiva
Para Evaldo, a profissão de historiador é uma vocação que desafia a compreensão do presente a partir do passado. “O historiador tem que mostrar quais são as fontes, não só documentos escritos, mas retratos, narração de gol e imagens de arquibancada”, conclui.
